"Estou tentando recomeçar" - Revista QUEM

15/06/2012 18:42

Aos 45 anos, Giulia Gam admite que pensa em se casar novamente, após ter enfrentado momentos difíceis, como a morte da mãe e a luta pela guarda do filho, Theo, de 14 anos, com o ex-marido, o jornalista Pedro Bial. Em cartaz em São Paulo e gravando a novela Amor Eterno Amor no Rio, a atriz também faz um balanço dos 30 anos de carreira

“Entrem, perdoem por atendê-los assim. Peguei uma gripe, estou um pouco entupida. Mas fiquem à vontade, tomem um café”. Desculpa-se gentilmente Giulia Gam, ao receber a equipe de QUEM usando um hobby felpudo branco, na sala de seu apartamento em São Paulo, onde mora nos fins de semana, por causa das apresentações do espetáculo infantil Pedro e o Lobo. Algum tempo depois, ela surge de banho tomado, vestido preto, com os cabelos escovados e maquiada. “Depois dos 40, sem maquiagem não dá”, diz, soltando sua famosa gargalhada.

Atuando também na novela Amor Eterno Amor, em que vive a jornalista Laura, a atriz tem se dividido entre a capital paulista e o Rio de Janeiro, onde fica de segunda a sexta-feira com o filho, Theo, de 14 anos, do casamento com Pedro Bial, de quem se separou em 1999. A rotina aparentemente caótica, no entanto, é bem-vinda. “Tive processos difíceis para lidar na minha vida. Moras nas duas cidades, agora, demonstra meu momento de liberdade, de alegria”, diz, sobre a luta pela guarda do filho e a morte da mãe, Ana Deise Gam, em 2007. “Fico muito feliz quando falam: ‘Nossa, você está passando uma energia tão boa!’. Estou tranquila, aliviada mesmo, conseguindo colocar cada coisa no seu lugar dentro do meu coração”, desabafa.

No papo, Giulia relembra o início da carreira, que completa 30 anos, e admite ter tido preconceito com a televisão. Aos 45, namorando a distância o pesquisador americano Stephen Bocksay, ela também não descarta a hipótese de se casar novamente. “Adoraria ser mulher de um homem que eu admirasse, ter três filhos, ser paparicada pelos quatro. Acho que seria feliz.”

 

QUEM: Como tem sido viver no Rio e em São Paulo?

Giulia Gam: Estou adorando. Me formei aqui (em São Paulo) culturalmente, né? Comecei a trabalhar com 15 para 16 anos, tenho uma família de amigos que mora perto deste apartamento, que comprei há três anos, e tem essa coisa gostosa de um ir à casa do outro, se encontrar na praça, fazer leitura de textos. Já, no Rio, fico com o Theo, tem a valorização de uma vida saudável, que também é legal.

QUEM: Você cuida dos apartamentos?

GG: Imagina, tem gente trabalhando comigo! É muito difícil a vida doméstica, só sei fazer omelete. Gosto de hotel. Se estoura um cano, mudam você de quarto. É só discar “um zero treco” e mandam a comida na bandejinha. Tive um apartamento que meu pai me ajudou a comprar, aos 21 anos, nos Jardins, onde aconteciam saraus com Caetano (Veloso), Marina Lima, Haroldo de Campos (poeta e tradutor), nosso mestre. Fui montar minha segunda casa aos 30 anos, com o Pedro (Bial). Tive processos difíceis para lidar na minha vida, que são públicos. Morar nas duas cidades ao mesmo tempo, demonstra meu momento de liberdade, de alegria.

QUEM: Você se refere à luta pela guarda de seu filho?

GG: Teve uma fase em que a minha vida ia a velocidade de cruzeiro. Parecia aquele programa, 24 Horas. Às vezes, paro e penso: “Será que o telefone não vai tocar com nenhuma emergência?”. Teve a doença (tumor cerebral) e morte da minha mãe, uma das coisas mais intensas que vivi. Dá saudade, mas agora isso está ficando mais apaziguado dentro de mim. Sobre meu filho, foi uma fatalidade, mas não adianta lamentar. Filho é uma coisa que está crescendo, não dá para parar e analisar. Nos colégios mais abertos, como o do Theo, já não é tão novidade a história que ele passou, ter pais separados. Eu tenho a guarda, mas a visita do Pedro é bem abrangente, ele convive com os dois.

QUEM: Gostaria que fosse diferente?

GG: Achava, aos 30 anos, que já tinha chegado a um lugar. Até consegui me iludir que planejei tudo, mesmo sem planejar: a carreira, o trabalho como Dona Flor, estava no auge da feminilidade, estava bonita, casada, engravidei. Estava tendo projetos com o Pedro, em termos de trabalho funcionava muito bem, a gente se complementava. Era como se fosse deslanchar. De repente, mudou completamente. Coisas que não dependem da gente... Bem ou mal administradas, com mais ou menos dor, graças a Deus, essas tarefas foram cumpridas.

QUEM: Está mais tranquila, então?

GG: Fico muito feliz quando falam: “Nossa, você está passando uma energia tão boa!”. Estou tranquila, aliviada mesmo, conseguindo colocar cada coisa no seu lugar dentro do meu coração. Não tenho mais 30 anos, mas paciência. Vamos ver se com 45 ainda dá para aproveitar (suspira e ri).

QUEM: Como vai o namoro (com o americano Stephen Bocksay)?

GG: Então, a gente sabia que esse semestre seria complicado porque ele terminou a tese dele, ia ficar um período bem recluso, estudando, e eu na novela, no teatro. Vamos ver o que vai ser, logo mais ele estará no Brasil. A gente se conheceu aqui, ele é um brasilianista, me viu lendo uns poemas e se aproximou. Conversamos um tempo pela internet e, no ano passado, ficamos juntos.

QUEM: No espetáculo, você convive com muitas crianças. Tem vontade de ter mais filhos, casar novamente?

GG: Quando vejo aqueles rostinhos, dá muita vontade de ter outro filho ou ir me preparando para ser avó, né (solta uma gargalhada)? Adoro criança. Tenho um lado extremamente romântico e adoraria ser mulher de um homem que eu admirasse, ter três filhos, ser paparicada pelos quatro. Acho que seria feliz. Por outro lado, é difícil formar uma família, realisticamente falando. Quer dizer: não é impossível, mas  aos 45 anos, não há a mesma energia dos 30, nem a mesma inocência.

QUEM: Como se sente aos 45 anos?

GG: Entusiasmada. Estou tentando recomeçar. Não digo que meu corpo esteja melhor, nada disso, mas já me conheço, me aceito. Com este cabelo curtinho aqui, eu me sinto à vontade. Ao mesmo tempo, sinto uma cobrança muito grande, que parece que faz dez anos que deixei de fazer coisas para mim. Meu filho já está grande, agora sei que, se precisar de alguma coisa, sabe me ligar. O que sempre me fez sentir viva – sentir que estou no lugar certo na hora certa – é estar em cima de um palco quando o espetáculo acontece. É como se o tempo parasse, e é isso que tem que ser: o lado religioso e sagrado do teatro, o tempo para e você consegue estar integralmente no presente. É a sensação que me dá mais prazer.

QUEM: Por ter começado no teatro, teve preconceito com a TV?

GG: Tinha muito preconceito, chegava a ser um conceito mesmo. Hoje, é engraçado falar, mas achávamos que era se vender para o sistema. Eu era xiita, perdi e neguei trabalhos. Trabalhei num grupo muito rígido, do Antunes (Filho, diretor teatral), era muito nova, era virgem, tinha um negócio de não valorizar o lado sensual naqueles parâmetros da época, em que você tinha que ser mais vamp, mais cara de mulher. Eu tinha um rosto redondo, um olhar mais cativante, podia ser mais simpática. Agora, me sinto mais segura, até mais bonita.

QUEM: Faria plástica?

GG: Tenho boa genética e, pela alimentação correta, o estrago não foi, digamos assim, tão grande (risos). Digo que os paparazzi fazem a festa comigo porque me pegam no aeroporto, às 8h da manhã, com a cara mais medonha do mundo. Sem maquiagem, depois dos 40, não dá. E ficar passando maquiagem... me sinto trabalhando. Então, peço perdão, mas acho que vou continuar assim.

QUEM: Já fez algum tratamento, intervenção estética?

GG: Nunca fiz botox, nunca quis interferência no meu corpo. Agora que estou tendo tempo para pensar nisso, pesquisar opções de preenchimentos, lifting, quero cuidar do meu rosto, da flacidez, que não me incomodam pessoalmente nem no palco, mas talvez para a TV ou o cinema sejam válidos. Gostaria de diminuir os seios, que cresceram quando era muito menina. Em vez de aproveitar, botar pra fora, é algo que me acanha. Meu sonho é botar uma camisetinha sem sutiã e sair por aí.

 

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