DILÚVIO EM TEMPOS DE SECA: Nem oito nem oitenta

01/02/2005 16:42

Uma pergunta logo de início: por que críticas tão duras com a peça? Dilúvio é sem dúvida um trabalho de aposta, tanto dos atores, Giulia Gam e Wagner Moura, quanto do diretor, Aderbal Freire-Filho. Problemas há e não são poucos, mas ainda assim a peça é de fato tão ruim?

Antes de tudo, o texto mostra de cara sua fragilidade. Marcelo Pedreira possui nitidamente maiores dificuldades em escrever para personagem feminino. Apesar da entrega de Giulia, a mulher escrita ainda é caricatural, óbvia demais e limitada a uma visão pouco reflexiva de suas capacidades. E a peça começa com o desenho de uma garota drogada (de novo), modelo (de novo), porra-louca (de novo), com todos os estereótipos das moderninhas dos anos 90 (ainda isso...). Wagner Moura tem mais sorte. O silêncio durante a primeira parte da peça leva seu personagem a demonstrar outras camadas que pouco à pouco nos preparam para assisti-lo, já desenhado em diversas faces, quando se torna voz na parte final.

Mas não é um erro o texto ser mais bem escrito para o masculino do que o feminino. E sim, fator técnico. E técnica se apura com o tempo e errando. Marcelo consegue retirar do óbvio das cenas um relacionamento interessante sobre o vazio da vida e o esgotamento da humanidade. Ainda que o texto não revele visões originais, ainda assim é suportável, apesar de longo.

O maior problema de fato é a abordagem da encenação. Que Aderbal é um dos grandes diretores vivos não se duvida mais. A manufatura é bem construída, esteticamente bem realizada, sem que ao público fiquem indagações de qual ser o caminho escolhido. O espetacular da peça é fácil, ainda que conceitual.

No entanto, durante as duas horas de apresentação, tem-se a impressão que a encenação poderia se expor um pouco menos. Muito menos, até.... Cabe ao texto ser interpretado pelos atores e não pela direção, e essa disputa não traz neste caso ganhos de obra-prima. Ou se revela uma construção da peça partindo da visão do encenador com todas as suas idiossincrasias e elementos lingüísticos, ou se permite ao ator tomar o palco e revelar por si só a importância do texto. Raramente os dois lados são eficientemente explorados. E a opção por qual caminho seguir surge, a priori, do próprio encenador. Não é o caso em Dilúvio em Tempos de Seca. A encenação atrapalha a importância do cenário perfeito, da iluminação pontual, criando movimentos excessivos e desnecessários aos atores, dentro de uma sonoplastia absolutamente equivocada e um trabalho corporal aquém das capacidades dos intérpretes.

Dilúvio em Tempos de Seca merece crédito pela performance dos atores, mas é preciso que o espectador compreenda que o texto não está finalizado na potência qual pode vir a ser e abstraia as intromissões da encenação. No todo serve como um excelente exemplo para mostrar que o teatro feito em palco italiano precisa de novas discussões, onde a interpretação e a direção devem ser reavaliadas e reposicionadas dentro de um projeto estético maior. Cabe aos novos criadores deste teatro o dever de rever os anos 90 e seus vícios. E sei muito bem que isso não é tarefa fácil, pois também compartilho dessa mesma dificuldade. Bendita hora em que Gerald Thomas nos ensinou que o palco é também uma construção do encenador... Mas como sair disso agora?

Fonte: http://bit.ly/R4ZMCa