Distância dos holofotes

15/04/2013 20:05
Ao contrário de sua personagem na novela 'Sangue Bom', Giulia Gam se diz avessa à fama e confessa que ainda questiona sobre seu trabalho na TV

Se alguém vir Giulia Gam dando um ataque de estrelismo por aí, ela vai explicar que não passa de uma cena de Bárbara Ellen sua personagem em 'Sangue Bom', nova novela das 19 h da Globo, escrita por Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari, com estreia marcada para 29 de abril. Na trama, ela encarna uma atriz sem talento que faz de tudo para virar notícia. Mãe de cinco filhos na ficção, sendo quatro adotados, ela vai movimentar a história por destruir casamentos alheios para alcançar seus objetivos profissionais e pessoais.

Na vida real, a paulistana afirma não estar tão interessada nos holofotes e que ainda se questiona sobre o fato de ter começado uma carreira na televisão, em que a fama tem um peso. Além de falar sobre o novo papel, Giulia também reclama sobre a falta de investimentos no teatro.

Como é a personagem?
Giulia Gam - A princípio, eu não a vejo como uma vilã porque não é uma pessoa que quer sair por aí matando todo mundo. Ela sintetiza um lado da questão da novela, a busca pela fama, pela imagem. É uma atriz canastrona, mas que sempre teve carisma e uma fama de sedutora. Através dessa sedução ela foi fazendo a carreira, se casando com diretores. Já está no oitavo casamento. E cada vez alguém mais interessante para que ela possa subir na carreira.

Por que ela tem tantos filhos?
Giulia Gam - Ela queria ser uma estrela de TV. Ela adota as crianças como uma maneira de se manter na mídia. Ela adotou essas crianças, como o Kevin (Marcus Rigonati), que é branco, mas ela diz aos jornalistas que é 100% negro. A Luz (Ana Graciela), ela fala que tirou da selva amazônia, o Kevin das minas da África, e a Dorothy (Ayumi Irie), da Tailândia. São crianças do Brasil mesmo.

Por que ela quer transformar Amora, personagem da Sophie Charlotte, em celebridade do mundo da moda?
Giulia Gam - Ela tem na Amora, uma it girl, a transição do desejo dela. Ela forma essa menina, que pegou no orfanato e tem pavor daquele mundo do qual veio. Ela também veio da zona norte de São Paulo e sofreu, teve uma vida miserável. Desde pequena, ela queria o sucesso.

Você já teve avidez pela fama?
Giulia Gam - Essas escolhas são diferentes das minhas. Vim de um meio ao contrário disso. Meus pais eram intelectuais, fui para o grupo do Antunes (Filho), em que a gente nem tinha o nome no cartaz. No teatro, fiquei sempre em grupos ou em companhias. Para mim, o valor é sempre do trabalho. O trabalho é que tem de aparecer, ser reconhecido. Não faz o menor sentido eu dar uma entrevista se não tiver a segurança de que não há um bom trabalho por trás para divulgar. Acho que as minhas opções foram opostas. Sempre tentei me envolver com pessoas que não fossem do meio. Sempre tentei fugir para que o meu trabalho ficasse na frente.

Você já teve a vida amorosa exposta em ocasiões como o fim do casamento com o jornalista Pedro Bial. Em algum momento você sentiu a intimidade invadida ou acha que se expôs mais do que deveria?

Giulia Gam - Vocês (da imprensa) conhecem, provavelmente uma relação minha, que se tornou uma situação pública por causa da questão do filho (o casal brigou pela guara de Theo, hoje com 15 anos). Antes, aparecer era prestígio. É uma troca. Há pessoas que oferecem um produto a ser vendido. Esse mercado não me interessa. Eu não teria energia para ficar lidando com isso, prefiro colocar no meu trabalho. Sempre tive excelente relação com a imprensa. Posso pecar por me abrir demais em momentos em que não estão interessados em saber o que penso. Sempre me senti apoiada na questão do filho. Porém, posso mudar completamente depois de Bárbara Ellen. Quantas atrizes ficam loucas, têm namorados jovens e posam nuas?

Artistas que buscam a fama pela fama a desanimam?
Giulia Gam - Eu já estou em um segundo patamar da vida. Na minha época, já havia essas pessoas. Na Globo, eram valorizados os atores que tinham conteúdo e uma história. É frustrante se você se dedica a isso e não sente retorno. As pessoas, até para se manter na mídia, têm de ter algum tipo de talento. Eu tenho admiração pela Madonna. Ela não é uma grande cantora, mas tem um talento tão grande e uma antena bem ligada. Ela está sempre à frente do que você nem começava pensar. Isso é que a tornou genial, não foi simplesmente a voz dela. Há pessoas que conseguem alguns minutos disso e são rapidamente esquecidas. Assim como há pessoas que podem não ter algum trabalho, mas a performance é exatamente saber lidar (com a mídia). Isso não deixa de ser um talento. Tem gente que nem precisa ser entrevistada, elas mesmas se entrevistam.

Você saiu do grupo de teatro do Antunes Filho, que vai na contramão da fama, para fazer TV. Foi um processo difícil?
Giulia Gam - Acho que tive muita resistência em fazer televisão. Era como entrar para um trabalho industrial, mesmo que você tivesse os melhores artistas. Eu tinha resistência ideológica porque o Antunes defendia a questão de que a TV não era um lugar de formação atores. Ir para a TV não era um bom passo. A questão da fama não era discutida. Existia a imprensa, mas não um mundo midiático. Tudo não era tão veloz como hoje.

Você ainda se questiona sobre essa mudança profissional?
Giulia Gam - O que ainda se mantém um pouco em mim é que ainda tenho a necessidade do estudo, do tempo, da elaboração. Às vezes, é um pouco cruel a velocidade imposta pela novela, pelo meu condicionamento. Venho aprendendo a ver o prazer disso, ser menos crítica ver que a novela é algo em andamento. Você pode não começar bem e depois tem um retorno do público. Se o personagem é interessante, pode não ser só um retorno da vaidade. Aquilo pode mexer com a vida das pessoas. Essa preocupação ainda me persegue. A Bárbara era um desafio, ela é o oposto de tudo aquilo a que fui doutrinada, que era exatamente não buscar a fama.

Tem medo de ser esquecida?
Giulia Gam - Tenho 30 anos de carreira. Antes, a gente tinha medo de batalhar e descobrir no fim que não tinha talento. Nunca tive medo de sair (da mídia). Se trocasse isso por outra coisa que me desse igualmente prazer, não teria problema. Já tive essa ambição quando nova. Depois que você tem filho, outras coisas passam a ter valor na vida. Para quem está de fora, nosso trabalho na TV pode aparentar glamouroso. Mas é árduo. Acho que as estrelas que a gente tem no Brasil que estão nesse patamar talvez sejam as cantoras e apresentadoras. Ator no Brasil não é milionário. Para atores que pegaram uma época em que você era uma diva deve ser muito doloroso não ser reconhecido, as pessoas da nova geração não terem ideia de quem você é. Pode ser que, mais para frente, se eu descobrir que minhas lágrimas não ajudaram em nada, talvez eu fique triste (risos).

Você não conseguiu manter uma temporada do musical Pedro e Lobo no Rio e afirma que fazer teatro na cidade está difícil. Por quê?
Giulia Gam - Nós não estamos sendo a atração principal neste momento. A questão do esporte, da revitalização da cidade, da segurança talvez tenha mais importância neste momento do que a questão cultural da cidade. Nos grandes eventos que chamam a atenção do Rio internacionalmente há interesse. O Rio está sofrendo com a falta de teatros, principalmente depois do incêndio (da boate Kiss, em Santa Maria, que fez a prefeitura carioca fechar teatros sem condições para situações de emergência).

O excesso de meias-entradas atrapalha na hora de montar uma peça?
Giulia Gam - Quem tem de dar meia-entrada é o governo. Assim como ele dá bolsa-família, bolsa isso, bolsa aquilo, tem de dar o vale-cultura. Tem de subsidiar a ida de jovens de escolas públicos ou a gente ter melhores condições de apresentar um espetáculo. Brinco que o Sesc é nosso Ministério da Cultura. Se não fossem eles, não haveria teatro. Quando a prefeitura (do Rio) banca Rolling Stones com dinheiro público, na Praia de Copacabana, para todo mundo assistir, sendo que eles têm patrocínio para isso, acho um absurdo. Não há investimento privado forte. Quando a gente faz um espetáculo a R$ 1 tem um público sedento, que é mais espontâneo, mais participativo.

Fonte: http://migre.me/e8udT