Entre a luz e a sombra

01/11/2015 22:22

"Nada ficará no meu caminho. Estou coberto de tanto sangue que não dá mais para retornar. Sendo assim, vamos em frente." A frase, ainda que não literal, é uma representação precisa da descomunal ambição que move o personagem Macbeth, um general herói de guerra decidido a abrir com sangue o caminho que o conduzirá ao trono da Escócia. Com um hiato de mais de quatro séculos desde que foi escrita por Shakespeare, a sentença também se presta a uma impiedosa radiografia do cenário político brasileiro atual. "Para qualquer lado que se olhe no Brasil de hoje, esta frase parece se encaixar perfeitamente", diz o ator Thiago Lacerda, protagonista da montagem de Macbeth que entra em cartaz no dia 5, no Teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo. "Independentemente das convicções políticas, todos estão imersos no poder desta frase, o governo, a oposição, as oligarquias, as elites. Você olha para os lados e encontra apenas desespero. Mas acredito que desse caos deva surgir algo interessante. É impossível que não exista um amanhecer depois desta escuridão."

Ao menos no caso específico do teatro, esse amanhecer foi providenciado pelas mãos do próprio Shakespeare, autor da comédia "Medida por Medida", que chega no dia seguinte, para ocupar o mesmo palco e praticamente o mesmo cenário que na noite anterior serviram de abrigo à sucessão de crimes e intrigas engendrada por um tenebroso conluio entre o general e sua mulher, Lady Macbeth (papel da atriz Giulia Gam), apontada por uma legião de teóricos como a mais sanguinária personagem feminina nascida de mãos humanas. Com a estreia simultânea de "Macbeth" (que ficará em cartaz nas noites de quinta e sábado) e "Medida por Medida" (às sextas e domingos), Lacerda diz acreditar que pode oferecer ao público muito mais do que duas peças. "Estamos diante de uma jornada cultural, de uma experiência de gênero", afirma. "Numa noite, presenciamos a verticalidade de um mergulho no pesadelo da ambição e da maldade; na noite seguinte, somos surpreendidos pelo prazer de uma comédia urbana divertidíssima. É um jogo entre luz e sombra raramente visto nos palcos brasileiros." O elenco de 14 atores, que se revezam nos dois espetáculos, trabalhou durante três meses, oito horas por dia com 20 minutos de intervalo, em uma sala de ensaios situada na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca, no Rio, sob a batuta de Ron Daniels, 72 anos, diretor brasileiro radicado em Nova York em cujo currículo contam-se 41 montagens de textos de Shakespeare. Ainda assim, ele não esconde o encantamento que sente toda vez que se vê diante da obra do dramaturgo inglês. "Ainda me surpreendo a cada hora de ensaio, e neste projeto foram 800, com a beleza e o conhecimento que Shakespeare tinha da alma humana", diz Daniels. "Os nossos sonhos e as nossas fantasias mais secretas se realizam em suas peças. Ele soube retratar da maneira mais rica possível os nossos medos e contradições, sem nos dar qualquer solução a não ser enxergar a vida em sua grande complexidade."
Daniels dividiu com Marcos Daud uma nova tradução das duas peças para o português e está em negociação com o Sesc para publicar, em um mesmo volume, quatro textos do repertório de Shakespeare que ele dirigiu por aqui. Além de "Macbeth" e "Medida por Medida", entrariam no livro "Hamlet", que ele conduziu com Thiago Lacerda em 2012, e "Rei Lear", com
Raul Cortez, encenada no ano 2000. "São traduções que nasceram para ser faladas por atores brasileiros, que pretendem ser o retrato de um teatro popular, como Shakespeare era popular em sua época", diz. "São enredos e construções compreensíveis por todos e que mantêm uma distância considerável do academicismo".
Em "Macbeth", Shakespeare desenhou a figura de um general que, deixando-se conduzir pela ambição da mulher, Lady Macbeth, concorda em assassinar o rei da Escócia para ocupar seu lugar no trono, ainda que venha a ser perturbado com severas crises de consciência.
"Medida por Medida" traz a história de um duque fanfarrão que decide punir com a morte o autor de qualquer abuso sexual cometido em sua cidade, como forma de conter a crise moral que se estende sobre seus domínios.
"'Macbeth' é centrada principalmente nas ações dos dois protagonistas, o general e sua mulher", diz o diretor. "'Medida' é uma peça de equipe, de grupo, um texto que se esparrama pela cidade".

Para articular a distribuição dos 14 atores entre as duas peças, Daniels adotou um princípio básico de divisão mecânica do tamanho das responsabilidades de cada um em cena. Assim, aos protagonistas de um espetáculo caberiam papéis menores no outro. Thiago Lacerda e Giulia Gam, por exemplo, que vivem o general e sua mulher na tragédia Macbeht, interpretam respectivamente a Senhora Bem Passada e o conselheiro Angelo na comédia "Medida por Medida". Marco Antonio Pamio e Luisa Thiré, que assumem os papéis principais do duque e de Isabella em "Medida por Medida", surgem em "Macbeth" como Lord Macduff e Lady Macduff.
"Embora com enredos e situações logicamente distintos, as duas peças discorrem sobre o poder. Mais especificamente, como o homem se transforma no momento em que assume o poder e se deixa corromper por ele", diz Daniels. Segundo o diretor, quando a produção decidiu pela ousadia de montar dois textos de Shakespeare simultaneamente, "Macbeth" e "Medida por Medida" despontaram como as escolhas mais lógicas e complementares.
Por respeito à logística, o cenário dos dois espetáculos é praticamente o mesmo, embora um recurso cênico tenha sido pensado para promover a necessária diferenciação de climas entre as histórias, tarefa entregue ao fotógrafo, artista visual e videomaker Alexandre Orion. Criador da famosa intervenção urbana "Ossário", na qual empregou tecidos para remover as marcas de poluição do túnel Max Feffer, na avenida Cidade Jardim, em São Paulo, revelando imagens de caveiras humanas, produziu agora painéis gigantescos que pairam sobre a cena, exibindo imagens que, na opinião de Daniels, são "incrivelmente fortes e épicas". "Como empregamos o mesmo cenário nos dois espetáculos, as imagens criadas por Orion, que fogem completamente de qualquer concepção realista, contribuem para realçar a visão de mundos opostos propostos por Shakespeare".
Logo após a estreia das duas peças, Daniels adentra no universo religioso descrito pelo autor irlandês Colm Tóibín no livro "O Testamento de Maria", lançado no Brasil pela Companhia das Letras. A novela, de menos de cem páginas, deu origem ao monólogo homônimo já apresentado em Nova York e em alguns teatros da Europa. Traduzido para o português por Marcos Daud, "O Testamento de Maria", que apresenta uma visão polêmica e pouco ortodoxa da mãe de Jesus, deve ganhar a primeira montagem nacional, pelas mãos de Daniels, no início de 2016. Depois disso, o diretor retorna aos Estados Unidos, onde estão à sua espera uma nova leitura de "Otelo", o 42º Shakespeare de sua carreira, e a direção artística das óperas "La Bohème", de Puccini, "Don Giovanni", de Mozart, e "Carmen", de Bizet.
Fonte: http://goo.gl/GGjcR1