Entrevista para o Roda Viva

18/11/1991 03:01

[programa ao vivo]

Assista a um trecho da entrevista

Jorge Escosteguy: Boa noite. Estamos começando mais um Roda Viva pela TV Cultura de São Paulo. Lembramos que este programa também é transmitido ao vivo pela TV Minas Cultural e Educativa, TVE do Ceará, TV Cultura do Pará, TVE do Piauí, TVE da Bahia, TVE de Porto Alegre e TVE do Mato Grosso do Sul. A convidada do Roda Viva desta noite é a atriz Giulia Gam. Giulia Gam nasceu em Perugia, na Itália, tem 24 anos, começou no teatro com Antunes Filho, no Grupo Macunaíma, fez a peça Romeu e Julieta [1984]; também trabalhou com Fernanda Montenegro na montagem de Fedra, de [Jean] Racine [1639-1699]; na televisão, fez Que rei sou eu? e Mandala e a minissérie O primo Basílio. Seu último trabalho é em A grande arte [1991], de Walter Salles Júnior, que acaba de estrear em todo o país. Para entrevistar Giulia Gam esta noite no Roda Viva, nós convidamos Humberto Werneck, chefe de redação adjunto do Jornal do Brasil em São Paulo; Fernando Meirelles, diretor de TV e de comerciais; Edmar Pereira, crítico de cinema do programa Metrópolis da TV Cultura e repórter especial de cultura do Jornal da Tarde; Zeca Camargo, diretor de jornalismo da MTV; Eugênio Bucci, editor da revista Playboy; Ninho Moraes, diretor do programa Cara a cara da TV Bandeirantes; Aimar Labaki, jornalista e crítico de teatro, produtor e apresentador do programa Para teatro da Rádio 89 FM; e Wagner Carelli, repórter da Folha de S.Paulo. Boa noite, Giulia.

Giulia Gam: Boa noite.

Jorge Escosteguy: Você contava há pouco que tentou tirar passaporte italiano – seus pais são italianos, você nasceu na Perugia – e dinamarquês, porque o seu avô, [de sobrenome] Gam, é dinamarquês.

Giulia Gam: Isso, dinamarquês.

Jorge Escosteguy: Você também é como alguns milhares de brasileiros que acham que a solução à crise [brasileira] está no aeroporto?

Giulia Gam: Eu tenho pensado muito, eu acabei de vir de uma viagem à Europa, quer dizer, eu tive a chance de viajar muito com o Antunes, com muita gente, participar de vários festivais internacionais e tudo isso, mas o que eu gostei, que me chamou a atenção é, de repente, você ter técnica. Então, eu achei [a Europa] uma escola, porque você tem milhões de opções também. Eu acho que eu jamais pensaria agora em tentar abrir um campo de trabalho lá, eu pensaria em ir estudar, enfim, se o trabalho lá fosse uma conseqüência... mas eu fico muito feliz com o exemplo do filme do [cineasta] Waltinho  [Walter Moreira Sales Jr.] que a gente fez aqui e ele está tendo uma repercussão lá. Quer dizer, se alguém se interessar pelo meu trabalho, foi por um trabalho feito aqui, assim como com o Gerald  [Gerald Thomas] e assim como com o Antunes.

Jorge Escosteguy: Agora, a sua opção seria mais para aprender e trabalhar e não por um certo desencanto com o país, com a crise?

Giulia Gam: Eu tenho um profundo desencanto, eu sempre conheci o Brasil em crise assim, eu não sei como ele foi antes. Quer dizer, eu adoro o Brasil, as pessoas do Brasil e o talento do Brasil, mas a falta de estrutura é gritante, então é claro que, quando você vai para um país estrangeiro, você vê a possibilidade, enfim, de estruturas mesmo, você vê pessoas podendo trabalhar e fazendo o que querem fazer em diferentes áreas, e com dificuldades também.

Fernando Meirelles: Essa coisa de querer estudar fora, uma vez me contaram que você foi até a Índia atrás do [diretor de teatro e de cinema britânico] Peter Brook [1925-]. Como é essa história direito, eu queria que você contasse isso.

Giulia Gam: [ri] Pois é, eu já mitifiquei muito muita gente. Acho que até por causa dessas viagens com o Antunes e tal, então o Peter Brook foi um dos mitos. E como ele fez o Mahabharata [filme de Peter Brook, de 1989, baseado no épico homônimo indiano, texto sagrado do hinduísmo], que eu assisti várias horas de peça, fiquei encantada...

Fernando Meirelles: Que está no cinema em São Paulo.

Giulia Gam: Que está no cinema em São Paulo e que é maravilhoso. Então, [também] fiquei encantada pelo Jean-Claude Carrière [(1931) roteirista, escritor, ator e diretor francês], por ele, e eu acabei não indo à Índia, mas a tentativa de ir à Índia é exatamente porque eles iam lançar o filme Mahabharata lá num festival e tal, e aí teve problema de visto, era uma viagem complicada e eu acabei voltando. E foi legal porque eu conheci o Jean-Claude Carrière aqui no Brasil com o [cineasta Héctor] Babenco [vr entrevista com Babenco no Roda Viva] e a gente fez uma viagem incrível na tribo dos Ianomâmi, que agora eu soube que foi determinada... que é genial. Então, agora, quando eu vou a Paris, eu tenho acesso a uma pessoa por causa da qual eu quase fui até a Índia para conhecer.

Fernando Meirelles: Mas, então, você nem encontrou e Peter Brook?

Giulia Gam: Eu conheci antes e foi...

Zeca Camargo: E à Índia, você chegou a ir?

Giulia Gam: À Índia ainda não. Acho que eu não estava preparada [risos].

Aimar Labaki: Giulia, é engraçado você dizer que está desencantada, porque você tem só 24 anos, vai fazer 25 daqui a pouquinho, [mas] já trabalhou com o Antunes, que é o mestre do teatro brasileiro, com o Gerald Thomas, que é o Ziembinski, quer dizer, veio de fora e fez... com Bia Lessa [(1958-) atriz e diretora brasileira], que tem também uma mídia e um trabalho grande, o XPTO [grupo de teatro brasileiro] que [...] tem um trabalho de excelente qualidade. Quem mais? Eu devo estar esquecendo, ah, na hora de fazer teatrão, foi fazer com Fernanda Montenegro [Giulia ri]. Você chegou aos 24 anos de idade e passou pelo menos por todas as escolas possíveis para um ator da sua geração. Será que o seu desencanto não tem um pouco a ver com isso? Quer dizer, que opções sobram para depois de ter passado por essas coisas?

Jorge Escosteguy: Giulia, desculpe, só uma observação: por que você riu quando ele falou teatrão com Fernanda Montenegro?

Giulia Gam: Eu ri porque... vocês são terríveis! [risos]

Aimar Labaki: Eu falei teatrão com o maior carinho. Eu acho a Fernanda o máximo.

Giulia Gam: Não, vocês observam tudo, não é isso, não. Eu ri porque ele estava falando e eu me dei conta: realmente eu trabalhei com umas das pessoas que estão movimentando bastante, pelo menos o teatro, enfim...

Edmar Pereira: Giulia, posso juntar uma pergunta aí?

Giulia Gam: Claro.

Edmar Pereira: Isso corresponde a um plano seu de carreira ou o acaso foi a levando?

Giulia Gam: [...] Como eu não fiz escola [de teatro], eu comecei com 15 anos, fiz um teste com o Antunes, então eu sentia que, no Brasil, e também me falam muito mal da escola, não sei, acho que a EAD [Escola de Arte Dramática, da Universidade de São Paulo] ainda é uma das melhores, mas me falavam muito mal, então eu achei que, se eu estava aqui, eu tinha que estar em contato com as pessoas que sabiam e que eram mais interessantes, para ter pelo menos um aprendizado empírico, não é? Então, eu acho que foi uma junção de me sentir atraída pelos trabalhos e coincidir de poder trabalhar junto. Gerald é uma pessoa cujo trabalho eu acompanho há muito tempo, foi uma pessoa que eu procurei; a Bia me procurou, mas eu sabia que ela já vinha do Antunes, e o Antunes também, a gente se achou, eu acho.

Humberto Werneck: Giulia, você disse agora há pouco que, na sua vida, você já mitificou muita gente. Você está dando nome aos bois ou não?

Giulia Gam: Agora, assim?

Humberto Werneck: Sim, são essas pessoas [que você citou], são esses os mitos?

Giulia Gam: O Antunes, não deu tempo de eu mitificar, porque eu não tinha nem idade para ter visto nada dele, mas o Gerald é uma pessoa que me impressionou, até pelo contraponto que ele faz ao Antunes. E a Bia era uma tentativa até de uma identificação, duas mulheres de geração e tal, mas tem muita gente. E respondendo à pergunta do Aimar, o Peter Brook, quer dizer, eu tinha sempre essa vontade de ir ao estrangeiro, de também mitificar muito a Europa, os Estados Unidos, enfim, se inferiorizar, mas talvez seja uma coisa particular minha, talvez eu tenha curiosamente experimentado várias pessoas, e sinto que é uma hora de eu poder desfrutar mais de todas essas experiências. Talvez a vontade até de eu tomar um tempo fora, estudar, enfim, ter um pouco mais de segurança das coisas que eu conquistei.

Humberto Werneck: Você iria para onde se você pudesse? Se você fosse sair do Brasil agora, o que você procuraria lá fora como estudo?

Giulia Gam: Eu acho que tem milhões de opções, eu teria que ver melhor. Mas em Paris, eu conheci uma escola do [ator e mímico francês] Étienne Decroux [1898-1991], que morreu o ano passado. E de todas as pessoas que eu conheci, todo o trabalho... a partir do Gerald, eu comecei ver o trabalho, essa briga da forma, de dentro para fora ou de fora para dentro, da forma, enfim, mas um trabalho físico também, da construção de um papel, de um personagem, alguma coisa assim. Então, me atraiu esse trabalho físico, que o Decroux é que começou a estudar isso; ele era ator e depois desenvolveu todo um trabalho que, depois, com o [mímico] Marcel Marceau [1923-2007] virou pantomima. Mas ele manteve mais um trabalho de ator de corpo, de dinâmica mesmo de corpo.

Eugênio Bucci: Giulia, me estranha um pouco também esse seu desencanto, porque recentemente você esteve no centro de algumas agitações culturais paulistanas. O seu nome chegou até a ser comparado, em algumas matérias da imprensa, com o da Olívia [Guedes] Penteado [1872-1934], [grande incentivadora] do Modernismo [no Brasil]. Você reuniu o pessoal e deu origem ou pelo menos deu mais solidez a esses saraus literários, a esses encontros culturais todos. Isso aí não a animava, não lhe parecia um caminho para uma agitação de maior continuidade ou que soluções culturais pudessem pintar daí? Enfim, isso não a alentou, não a encantou?

Giulia Gam: Eu percebi, nessa época, e até percebi antes, no Plano Collor [em 1990], quando teve o Plano Collor, que todo mundo se viu num Estado comunista por roubo [ri] e não por ideologia, mas as pessoas começaram a se juntar, não é? Tinham um sentimento de solidariedade. Então, a coisa que não acontecia há muito tempo era de as pessoas se procurarem, tentarem estar juntas, porque não tinha mais como fazer alguma coisa. Então, foi daí que foram surgindo esses encontros, que viraram os saraus assim, e também porque tinha o Haroldo [de Campos (1929-2003), poeta e tradutor, foi um dos fundadores do grupo poético Noigandres, que deu origem ao movimento concretista] e um monte de gente que eu estava conhecendo.

Eugênio Bucci: O Haroldo é alguém que você mitifica?

Giulia Gam: O Haroldo de Campos, eu acho que é uma pessoa que ajuda a desmitificar muito, entendeu? Aliás, eu acho que eu entro muito em contato com essas pessoas... de 60 anos, assim [risos] acho que já desmitificaram... porque elas já estão em um ponto assim... É incrível, uma vez a própria Fernanda falou assim, quando ela fez 60 anos: “Bom, fiz 60, eu tenho talvez mais 10 anos de vida”, claro, vai ter mais, não sei. Então, acho que a pessoa pára nesse ponto e fala assim: “Ou eu faço o que eu quiser ou eu paro e mantenho o que eu fiz”. Eu sempre vejo essas pessoas aos 60, que de repente continuam, com uma liberdade assim, o Haroldo, a Fernanda, acho que o próprio Antunes, que faz [adaptação para o teatro da obra infantil] Chapeuzinho vermelho, entendeu? Eles já estão para lá, é genial.

Zeca Camargo: E isso acaba servindo de exemplo para você ou lhe dá uma ansiedade de querer chegar lá nessa tranqüilidade?

Giulia Gam: É, eu vejo que ainda não posso desfrutar deles, porque eu ainda vou ter que viver até os 60. É muito cômodo eu conviver com uma vida deles, que já está vivida assim, não é?

Zeca Camargo: Falando em viver a vida e nos seu desencanto também, voltando sempre nele, quem vê de fora às vezes tem a impressão de que foi tudo um pouco fácil demais, seja por sorte ou por coincidência, pelas pessoas que você encontrou. Você tem essa sensação de que...? Você teve que batalhar muito por todos esses encontros e todos esses trabalhos?

Giulia Gam: É muita angústia, viu? [risos]

Zeca Camargo: Não quis nem entrar nessa...

Giulia Gam: Meus amigos é que sabem quantos telefonemas eles recebem [grita, rindo], é difícil. Acho que tem... mas tem muita procura, muita dúvida, porque tem muitos caminhos que você pode fazer, eu não sou de uma família de atores ou de um meio de atores... Agora acho que eu estou mais confiante, acho que, até por já ter experimentado vários canais assim, um pouco já sabendo... Eu não sei se eu estou desanimada assim, eu estou desanimada com essa falta de estrutura, porque você vê que tem pessoas, até por esses saraus todos, você vê que tem gente, e você quando viaja você fala: nossa, mas que condição terrível que a gente está. Parece que é um vidro assim que fecha o Brasil, é uma prisão e é impossível...

Wagner Carelli: E os saraus acabaram ou não?

Giulia Gam: Eu também tive uma... esse ano que passou, antes dessa viagem, foi muito bom ter viajado, e eu fiquei muito assustada com a mídia no Brasil. Aliás, talvez no mundo inteiro, mas eu nunca senti tão forte em relação a mim, um pouco porque eu acho que, primeiro eu vinha de teatro e, de repente, eu fui para a televisão, então não tinha muito como rotular, então eu sofria bombardeios de vários rótulos, ou até preconceito por ter feito trabalho na televisão, como se tivesse vestido uma camisa ideológica daquele trabalho... na volta ao teatro. E esses saraus eram uma coisa superlegal e também tinham um tom sempre muito irônico, muito cínico...

Eugênio Bucci: Você levava a sério assim, como que era?

Giulia Gam: Eu levava, hoje em dia não levo mais [risos]. Graças a Deus.

Jorge Escosteguy: Você disse que estava assustada com a mídia. Você comparte um pouco aquela opinião com quase todas as pessoas que vêm no Roda Viva, em geral, principalmente políticos, que acham que a imprensa tem culpa de tudo? O Cláudio Abraão, de Americana, telefonou, perguntando se você acha que a imprensa brasileira também tem culpa pelo estado atual em que se encontra o país.

Giulia Gam: Eu acho que a imprensa forma opinião, não tem como, entendeu? Eu acho que...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Forma opinião para o bem ou para o mal.

Giulia Gam: Exatamente, então eu acho que tem que ter um controle disso também, eu acho que chegou a um ponto assim que já estava virando qualquer nota, entendeu? Qualquer jornalista, qualquer pessoa, ou até um trabalho artístico de teatro e tal, estava virando furo jornalístico, e não uma pessoa que realmente tivesse interessada em entender o processo, como a coisa acontecia, como a coisa se desenvolvia. Era o furo jornalístico do ensaio tal, era uma coisa muito jornalística, de um trabalho que tem que ser de crítico, de alguém que realmente se interesse, ame e queira...

Jorge Escosteguy: Você acha que tem que ter controle? Que tipo de controle você acha que tem que ter?

Giulia Gam: Não, controle de qualidade [ri], não é? Acho que um autocontrole de qualidade. Acho que a culpa não é da mídia... você é que tem que ter confiança e saber continuar, porque se você realmente leva a sério, você cai, às vezes você pode cair, tombar e ficar.

Jorge Escosteguy: Sobre seu desencanto, o Jorge Luiz, aqui de São Paulo, telefonou e perguntou: “Por que em lugar de pensar em sair do país, você não fica e batalha para melhorar culturalmente o Brasil?”

Giulia Gam: Pois é [risos].

Ninho Moraes: Aí eu queria sair um pouco em defesa dela, porque parece às vezes que, por sorte, você foi chegando em todos os lugares, mas o que você trabalhou é uma coisa impressionante. Além do teatro, só em televisão você fez O primo Basílio [minissérie de autoria de Gilberto Braga e de Leonor Bassères, de 16 capítulos, exibida pela TV Globo entre 9/8/1988 e 2/9/1988. A história é baseada no romance homônimo do escritor português Eça de Queirós], com a [atriz] Marília Pêra, que foi uma coisa superbonita...

Giulia Gam: [interrompendo] Eu tive um estresse absurdo depois daquilo.

Ninho Moraes: ...você fez aquela novela que foi engraçada, foi uma novela que foi um marco legal [Que rei sou eu?, novela de autoria de Cassiano Gabus Mendes, de 185 capítulos, exibida às 19h pela TV Globo entre 13/2/1989 e 16/9/1989. A história se passa em um país imaginário da Europa três anos antes da Revolução Francesa]; você fez Mandala [novela de autoria de Dias Gomes, de 185 capítulos, exibida às 20h30 pela TV Globo entre 12/10/1987 e 14/5/1988. A história é baseada na tragédia Édipo rei, de Sófocles], aquela sua fase inicial, que foi uma coisa bem importante para você. Como você conseguiu dividir tudo isso? Como você acha que ficou a televisão na sua cabeça agora, depois que você fez tudo isso em tão pouco tempo?

Jorge Escosteguy: Ninho, desculpe, você foi um excelente advogado de defesa, mas você fez uma outra pergunta. Eu gostaria que ela respondesse [antes] à pergunta do telespectador.

Giulia Gam: Por que eu não fico [no Brasil], não é? Não, eu nem sei se eu vou, entendeu? [risos] Eu não estou assim também...

Ninho Moraes: [interrompendo] Eu acho que ela não falou que ela ia, ela está indecisa.

Giulia Gam: [...] Assim, eu até achei que... a minha idéia inicial era ir aos 15 anos [ao exterior para] estudar mímica, nunca pensei em fazer teatro. E desde os 15 eu estou ficando e fazendo uma coisa e me vejo envolvida... Quando eu digo de uma vontade de sair, eu até falei isso, eu teria vontade de sair para me exercitar mais tecnicamente, para perceber coisas minhas mais, para poder desfrutar aqui. Eu jamais penso em ir [para ficar em definitivo]... Quer dizer, se eu for trabalhar lá, é uma conseqüência, mas sempre tentando manter uma... [Quanto à pergunta do Ninho Moraes] sobre a televisão...

Ninho Moraes: Eu puxei um pouco para a televisão porque é onde o grande público mais te viu, não é? Fora de sarau, fora de teatro.

Giulia Gam: Eu acho que eu sentia da televisão, eu posso fazer um tratado assim sobre a televisão, que eu acho que é uma coisa superimportante no Brasil. Eu acho que os trabalhos que eu fiz foram muito legais. Tudo é muito intuitivo também, depois que eu vou percebendo que tem uma superlógica por trás. Mas, na hora, eu não entendo muito bem por que eu estou seguindo aquilo, depois eu percebo a lógica. Então, eu primeiro comecei com minisséries, que foi a Mandala, depois O primo Basílio, porque eu também sentia que Marília Pêra era uma coisa de aprendizado... sempre me coloquei numa postura de aprendiz. Eu acho que é isso que mudou também. Aí quando surgiu a novela, eu não queria fazer, porque eu não queria me ver envolvida totalmente naquilo, eu tinha muito preconceito também, fui educada para não fazer [ri]. E aí eu fiz o Que rei sou eu?, contra uma vontade racional, seguindo uma vontade intuitiva, e depois eu falei: bom, já que é para fazer novela, vamos fazer. Eu sentia que seria uma mudança, quer dizer, a partir do momento em que você entra para a televisão, você entra para outro mercado, uma outra mídia também, um outro rol de coisas, muda tudo, realmente muda tudo: você vira uma figura popular, tem uma outra participação mesmo no Brasil assim. Enfim, o trabalho do Que rei sou eu?, eu achei bárbaro, porque ele fazia uma sátira do momento político, que era das eleições, então eu achei que a novela em si era muito interessante por isso, não era uma historinha de não-sei-quê, mas ela tinha um comentário diário, então nunca o autor não tinha o que falar. E de uma maneira superdidática, simplista e não-sei-quê, passava umas informações sobre o que estava acontecendo nas eleições...

Ninho Moraes: [interrompendo] Nas eleições presidenciais [de 1989], não é?

Giulia Gam: É, então foi interessante. Agora, a feitura da novela, como é feita no Brasil é que é desgastante. Então, eu sinto que chega uma hora em que aquilo é imbecilizante [ri], porque fica um trabalho funcionário mesmo. Você chega, bate o ponto e faz, porque é muita gente – [pessoas] supertalentosas, são os melhores, mas muito pouco tempo.

Aimar Labaki: Você, como telespectadora, assiste novela?

Giulia Gam: Eu assisto, [mas] não sempre, eu nem estou com televisão atualmente, mas assisto de tudo. Assisto também por já estar envolvida, querer ver os atores, querer ver o que está rolando.

Jorge Escosteguy: Você falou do trabalho, Giulia, como é aquela história do “dane-se” na novela? Vai gravar, aí o ator diz que não dá, e dizem: “Dane-se! Agora vai gravar”, e aí?

Giulia Gam: É, você tem que fazer, tem que fazer, então, por um lado, você perde o pudor assim, é uma “desvirginada” mesmo, você fazer uma novela, porque você tem que fazer. Então, se você não está concentrada, não importa, você tem que fazer, tem que ir para o ar e tem que fazer. Então, é frustrante no sentido de que você faz 10% do que você sabe que aquilo poderia ser enquanto idéia, enquanto... Agora, se você relaxa com isso, você faz e desfruta, [mas] eu nunca consegui relaxar, e sempre ficava frustrada.

Aimar Labaki: [...] porque foi pela intuição, mas você soube fazer direitinho do ponto de vista de marketing porque, por exemplo, você foi aparecendo pouco a pouco e só fez coisa de época, você nunca fez a menininha de Ipanema que : ah, não sei se eu gosto, não sei... Isso é racional ou não?

Giulia Gam: Isso foi.

Aimar Labaki: Foi saber lidar com a carreira.

Giulia Gam: É, eu achava duas coisas racionalmente, que era uma superestrutura industrial, então que eu tinha que estar mais preparada, tarimbada para poder lidar com aquilo. Eu lembro que, até quando a Fernanda me chamou, a Globo também chamou, ela ficou desesperada, e eu optei por fazer a Fernanda e ninguém entendeu isso, nem ela, ela ficou chocada assim [ri]. [...] Então, eu recusei vários convites da Globo, desde o Romeu e Julieta; foi até o [escritor e dramaturgo] Mário Prata que me chamou para fazer a primeira novela. E os papéis iam melhorando, cada vez que eu recusava a coisa ia melhorando [risos], não sei se isso serve de conselho, cada vez ia melhorando, entendeu? Até que chegou numa minissérie das oito horas, 15 capítulos, que era a Mandala. Então, eu sabia que eu teria que enfrentar um supersistema, isso eu achava. E achava também que seria muito mais difícil eu fazer algo “naturalista”, eu mesma ali e tal... Eu sempre quis usar as perucas, as roupas, para isso me obrigar a ter outra postura que não fosse uma postura cotidiana, urbana, carioca, então essas escolhas dos papéis de época foi proposital.

Humberto Werneck: E a televisão, o que é que lhe deu, além da canseira?

Giulia Gam: Ela me deu dinheiro [ri], quer dizer, em um primeiro momento foi muito assustador assim, a invasão na minha vida, isso foi total, foi assustador, de eu não poder andar na rua mais, as pessoas atrás, enfim, muita exposição. Então, de repente, eu tinha que cuidar de tudo que eu fazia, e dá uma paranóia muito grande, e a coisa de uma imagem. A grande preocupação era: meu Deus, agora eu tenho uma carreira, eu tenho que cuidar dessa carreira, eu não posso mais fazer o que eu quero, mas o que eu devo fazer, porque a carreira e o nome tem... isso me deu muita ansiedade nesse sentido. Depois – graças a Deus que passou –, agora lembrando... Quando eu fiz A cena da origem [espetáculo de 1989 dirigido por Bia Lessa, escrito por Haroldo de Campos e interpretado por Giulia Gam], por exemplo, que foi uma tentativa da volta ao teatro – era um evento, não era um espetáculo –, a cobrança em cima, a expectativa era muito grande. Então isso, num primeiro momento, pode ser terrível, porque te inibe muito, você se arma muito por uma imagem que você nem sabe qual que é, entendeu?

Zeca Camargo: Aliás, quem criou isso tudo talvez seja a própria TV. Por essa história que você está contando, a TV já considera que você tem um “star quality” assim, a novela que tiver a Giulia vai ser... eu preciso dela, eu preciso dela. E isso aconteceu no caso de você ter a condição de escolher um papel. Até quando você podia... você tem idéia da sua “star quality” assim? Até quando você podia ir recusando, ir recusando?

Giulia Gam: A Vamp [novela de 179 capítulos, exibida pela TV Globo, às 18h50, entre 15/7/1991 e 8/2/1992] foi uma coisa inusitada, eu conheço o autor, o Jorginho [Jorge Fernando de Medeiros Rebello], quer dizer, por um lado eu tenho uma superboa relação com eles, porque eu nunca tive contrato, então eu escolhia os trabalhos e, quando eu fazia, eu fazia mesmo, entendeu? Fazia, entrava e dava o sangue. Eles nunca entenderam eu não querer ter o contrato, porque eu podia ganhar um dinheiro enquanto eu não estivesse trabalhando e tal. Mas eu sentia que – aí já era do Antunes isso –, [imita a voz de Antunes Filho] ideologicamente, eu ia me acomodar, entendeu? [risos] Porque a gente só pode receber pelo que faz, entendeu? [risos]

Edmar Pereira: Quando você passa da TV para o cinema, é uma outra postura? Você baixa a guarda? Você pára de pensar dessa forma de se defender? Você se entrega mais completamente?

Giulia Gam: Eu tenho uma intimidade muito grande com o vídeo, devido ao Olhar eletrônico [documentário de 1986 dirigido por Fernando Meirelles, entre outros] [ri]. [...] não tenho medo de que gastem negativo [com] o vídeo, entendeu? Isso é uma vantagem muito grande, porque você pode fazer, refazer e tal. Eu acho assim: a única indústria que a gente tem no Brasil é a televisão, então, qualquer coisa que fuja disso, a organização disso, a disponibilidade disso, a procura disso, a vontade de fazer já é uma guerrilha, entendeu? Então já é outro sentimento que você tem em relação ao trabalho. A única indústria que a gente tem é a Globo, é nossa Hollywood, e é mesmo. O que me deu a televisão, e o que me mantém hoje, é a condição de fazer comerciais. Graças a Deus, os comerciais continuaram, não é, Fernando? [risos]

Edmar Pereira: Você tem recusado muitos? Tem comerciais que você não faz?

Giulia Gam: Tem, tem coisas que eu não faço, eu consigo fazer coisas bem...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Que tipo de coisas convidaram você para fazer de comercial que você recusou?

Giulia Gam: Eu gosto de comercial, eu acho que comercial é uma coisa que você tem pouco tempo para passar uma idéia, ele pode ser muito bem feito e ter uma repercussão muito grande, eu sempre gostei muito de fazer comercial, até já fui censurada por comerciais: teve um da Telesp, teve um da Playboy que foi censurado, teve vários. Então, eu acho muito legal, eu acho que tem um desenvolvimento muito grande do comercial no Brasil, até porque os técnicos todos de cinema estão nos comerciais e tal. Eu recusei coisas que são muito... que não têm a menor qualidade, assim, em nível nacional, sei lá, varejos, coisas de prédio, coisas muito ruins.

Eugênio Bucci: O que você tem contra prédio? [risos]

Jorge Escosteguy: Você mora em casa ou apartamento? [risos]

Giulia Gam: [rindo] Está bem, eu vou fazer os comerciais de prédios, pelo amor de Deus, eu preciso fazer comercial.

Jorge Escosteguy: O Eugênio tem algum projeto de construção de prédio...

Giulia Gam: Eu não tenho nada contra nenhum produto, quer dizer, talvez... eu não fumo, mas até cigarro, não sei, não sei, isso eu teria que ver.

Zeca Camargo: Giulia, engraçado a sua preocupação em gastar negativo, quando você falou de cinema, sendo que você vem do teatro, quer dizer, com você, teoricamente, as pessoas gastariam o mínimo de negativo possível. Ou não?

Giulia Gam: Não tem negativo. Eu lembro que o primeiro curta que eu fiz era assim: “Ai, vai, vai porque não tem mais negativo! Ai, acerta, todo mundo, reza, porque não tem mais! Ai, tomara que dê tudo certo, que a câmera chegue!” [risos] É uma condição muito precária... O filme do Waltinho foi uma coisa surreal nesse sentido, porque primeiro... a equipe era brasileira, mas você tinha atores do... Essa sensação que eu acho importante, acho que não é nem tão importante sair do Brasil, voltar ao Brasil, mas é comunicar com outras pessoas, entendeu?

Ninho Moraes: Você recebeu um pedido da [produtora norte-americana de filmes] Warner, foi mandado um book seu?

Giulia Gam: É, teve um diretor de casting lá que ligou, querendo falar comigo, com o nossa agente, como se a gente tivesse agente [risos]. Não, é muito chique, não dá, o meu agente, chiquérrimo, [...] Tonico Pereira e dos atores brasileiros, do Raul Cortez...

Aimar Labaki: É diferente trabalhar com ator americano?

Giulia Gam: O que foi bacana desse trabalho é que você vê... Claro, tem técnicas diferentes, principalmente os dois atores, o Tchéky [Karyo, ator francês nascido na Turquia] e o Peter.

Aimar Labaki: [O ator norte-americano] Peter Coyote.

Giulia Gam: Peter Coyote. Eu trabalhei mais com o Peter, eu não trabalhei com os outros. Mas esse trabalho foi bacana porque tinha também mexicanos, tinha gente de vários lugares, e você só mede o seu trabalho quando você está em confronto com essas pessoas, que a gente até mitifica, porque a gente recebe um monte de informações, mas não tem um contato direto. Então, você vê que funciona, as dúvidas são as mesmas, o jeito... As condições externas são diferentes, ou até de possibilidade de ter um acesso direto. O Peter Coyote fez o curso do Decroux, quer dizer, as informações talvez passem mais facilmente em Nova York do que... Mas isso que eu acho importante, essa junção de pessoas, e você poder entrar num set, isso foi chocante também, porque quando se entra num set, a última coisa que é vista é o ator, porque ainda estão ajeitando a luz, a câmera, e aí vai lá, faz isso, está ótimo, está lindo, já foi e você nem respirou. Lá não, quando tinha que filmar, o Peter falava: não, não tem mais câmera, agora a gente vai fazer a cena, que já foi ensaiada, já foi discutida. Então, era assim, sutilezas de interpretação. Se você estava um pouco mais assim, um pouco mais assada, quer dizer, isso aí a gente nunca tem aqui.

Zeca Camargo: Você disse que armaram tudo e aí o Peter disse: agora a gente vai filmar. Quanto o Waltinho participou? Como ele trabalhou perto de vocês assim, em uma entrevista ele disse que deixava os atores muito à vontade. Quanto à vontade?

Giulia Gam: Quanto à vontade [ri], [como se dissesse] façam o que quiserem [risos]. Não, eu só trabalhei com o Peter Coyote, então eu não acompanhei toda a filmagem. Teve uma vantagem, o Waltinho, no que ele não se sentia seguro, ele se armava da melhor maneira possível, então ele foi supercuidadoso. Então, por exemplo, com a nossa desculpa do inglês, eu não sei como ele trabalhou com os outros atores, mas comigo tinha um [...] americano para treinar o inglês. Ele também ensaiava cenas, milhões de maneiras possíveis e imaginárias, baseadas no que o Waltinho queria. Então, quando chegava na hora de filmar, eu já tinha todo um repertório que ele podia dizer o que ele queria ou não. Se ele tivesse alguma dificuldade de não saber como extrair alguma coisa de você, ele sabe o que ele quer, a vantagem dele é que ele sabe o que ele quer e o que ele não quer. Então, se ele não sabia como extrair, pelo menos eu tive um técnico que...

Fernando Meirelles: [interrompendo] O que você acha do seu personagem? Ou do filme inteiro?

Giulia Gam: Bom, eu adorei ter feito a Gisela [Martins, personagem do filme A grande arte], até porque ela tinha uma coisa que eu estava vivendo naquele momento. Não era um personagem de época que eu tinha que entrar, eu não tinha que entrar em nada, em nenhuma história, em nenhum trabalho antropológico sobre nada [ri] e eu estava vivendo muito o rock and roll e essa coisa mais direta de você poder falar com a minha geração, e não de uma mulher do século passado, sobre traição, coisas que até eu mesma não tinha vivido ainda. Então, para mim foi muito legal, foi uma coisa que foi contemporânea a mim, e uma coisa de sensualidade, porque eu nunca tinha feito uma prostituta. É maravilhoso prostituta, se pudesse, eu faria todas [risos].

Eugênio Bucci: Você concorda que um sonho de toda mulher, ou pelo menos de toda atriz, é um dia interpretar uma prostituta?

Giulia Gam: Bom, eu adorei, eu recomendo [risos].

Edmar Pereira: [interrompendo] Você fez um trabalho de sensualidade também no vídeo de [Júlio] Bressane [(1946-) cineasta brasileiro], não?

Giulia Gam: Aí é que está, a partir desse momento eu comecei a descobrir isso, porque eu sempre fazia as heroínas ou alguma coisa... porque o que é legal na prostituta, legal na fantasia, não na realidade dela... eu me interessei pelo mundo [das prostitutas], eu fui ao Rio a fundo, na Vila Mimosa [famosa área de prostituição na cidade do Rio de Janeiro], nos Barbarellas [boates], [nas casas de] sexo explícito todas e convivi, tanto é que eu sou apaixonada, vou ao Pigalle [região de Paris conhecida por concentrar casas noturnas e prostituição], vou em todos os lugares... Mas a partir do momento em que uma mulher... a coisa que a gente mais defende é o corpo, é o sexo, é o nosso primeiro reflexo. A partir do momento em que você comercializa isso, muda algo assim na sua cabeça, não é que você também... você é frágil fisicamente, mas você já lida com a coisa que você mais preserva, então já muda uma postura de vida mesmo e isso é muito interessante.

Wagner Carelli: Voltando à área dos convites, você posaria ou já posou para uma revista masculina?

Giulia Gam: Olha, eu sempre penso de um jeito interessante de fazer as fotos, entendeu? Porque para vender assim, para mostrar o meu peito, minha bunda, minha xoxota, isso eu não faria, sabe, explicitamente assim [ri]. Agora, [para mudar de assunto], a gente pode falar qualquer coisa? [risos]

Aimar Labaki: Por quê? Tem mais outras coisas? [risos]

Giulia Gam: Opa! Vocês não me liberem, não, hein?!

Jorge Escosteguy: Quem falou em controle de imprensa aqui foi você, não fomos nós [risos].

Giulia Gam: É, exatamente, que bom que é ao vivo, que nenhum jornalista vai registrar nada, mas...

Zeca Camargo: Você está falando de usar o corpo, você não acha que, eventualmente, quando você faz uma coisa em TV, você está usando, não tão explicitamente assim, mas você joga com todo seu charme e seu corpo também?

Giulia Gam: Sem dúvida, mas eu acho que usar o corpo não tem o menor problema, já fiz [teatro no Grupo] Macunaíma.

Wagner Carelli: Mas como você faria as fotos, afinal? Você estava dizendo...

Giulia Gam: Não sei... eu acho assim, eu tenho uma curiosidade por veículo, tanto é que às vezes eu me queixo, eu não sou uma virtuosa do teatro... dos cinco anos de idade, o teatro... eu fico curiosa [...] disperso em vários veículos ou se faz parte, no Brasil também faz parte. Mas eu tanto gostei de trabalhar com o [...], como depois em uma superestrutura... Eu me interesso pelo veículo. Júlio Bressane, que tem uma produção completamente diferente da produção do Waltinho. Então, se eu puder pegar uma revista, não sei se a Playboy teria esse espaço, de pegar uma coisa, que é posar lá e tal e criar algo inusitado dentro da própria revista, eu não sei se é do interesse dela, entendeu? Porque ela tem que vender isso.

Aimar Labaki: Você está se oferecendo [à Playboy]? [risos]

Giulia Gam: Não, não sei, não sei, se a gente bolar alguma.

Jorge Escosteguy: Você falou um pouco sobre a questão da popularidade. A Maria Amélia, telespectadora de São Paulo, perguntou se você, quando sai para fazer compras, se disfarça, põe óculos escuros etc. Como você administra a popularidade?

Giulia Gam: Eu rejeitei muito.

Jorge Escosteguy: De certa forma, como é que você faria uma comparação, claro que guardadas as proporções, que você quando fez o comercial da Telesp, você ficou muito conhecida, e é uma coisa completamente diferente do que depois você veio fazendo, como é que você administrava a popularidade nesses dois casos?

Giulia Gam: Na Telesp, eu era muito conhecida em São Paulo, porque [a propaganda era veiculada] no Estado de São Paulo. Era incrível...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Você saía na rua e diziam: “Olha a menina da Telesp?”

Giulia Gam: Sempre, sempre. Mas ainda era um comercial, era uma coisa rápida e tal. Quando veio a Mandala, eu já estava fazendo O primo Basílio, então eu não percebi o que aconteceu, tinha [o programa] Globo Repórter, capa da Veja, um monte de coisas, mas eu não tinha noção de como o público via isso, as pessoas. E aí, quando eu saí na rua depois de O primo Basílio, que ainda não tinha estreado, eu fiquei impressionada. Uma vez eu fui a um museu e um bando de crianças correu atrás de mim assim, e eu tive que me trancar no banheiro, uma cena absurda. É difícil porque, em um primeiro momento, isso me irritava muito, essa falta de privacidade, de não poder estar num contato real com as pessoas. A televisão é cruel, porque quando você faz ela é fria, e quando você recebe o retorno, ele vem tão em massa que você não tem nem como responder àquilo. Então, você tem que sair correndo, você tem que evitar, você tem que pôr secretária eletrônica e milhões de intermediários. Então, eu acho que muito de eu ter dado um tempo na televisão [foi] porque não teve nenhum projeto que, de repente... Eu fiz uma brincadeira na Vamp, até era engraçado: o autor, que era o [Antônio] Calmon, falou: “bom, quando você estiver livre, você me diz...”.

Jorge Escosteguy: [interrompendo] A Priscilla Terrazam, aqui de São Paulo, pergunta como você se sentiu fazendo a novela Vamp.

Giulia Gam: Pois é, a Vamp foi legal, porque era a mesma equipe do Que rei sou eu?, era uma coisa extraordinária. O Calmon falou: “Olha, quando você tiver um tempo, eu escrevo umas cenas, você faz”, quer dizer, eu podia entrar e sair em uma novela, é uma coisa excepcional, muito legal. Então, eu tenho uma superboa relação com ele. Mas eu senti que eu tinha que dar um tempo, exatamente para restabelecer relações reais, entendeu? Porque, de repente, eu acho que eu fui obrigada a ter uma distância... Agora a coisa se acalmou, agora é muito gostoso, porque as pessoas reconhecem, mas é humano, é real, não é a histeria de reconhecer um rosto que está na televisão, entendeu?

Jorge Escosteguy: O Fernando Cruz, aqui de São Paulo, de Perdizes, pergunta qual foi seu melhor trabalho em novela ou teatro e cinema.

Giulia Gam: Acho que é difícil dizer, porque eu, por exemplo, fui ver Jocasta [refere-se à personagem que interpretou em Mandala] uns dias atrás e achei um horror, entendeu? Eu não sei como que a coisa... quer dizer, isso é muito relativo...

Humberto Werneck: O que você gostou mais de fazer?

Giulia Gam: Acho que a Gisela foi uma das coisas que... eu geralmente gostei de fazer muitos papéis em que eu não tinha responsabilidade de protagonizar, e foram os que eu entrei mais relaxadamente, mais desfrutei, de repente até ficaram mais legais. Acho que Gisela foi um deles; em Romeu e Julieta também eu tive uma supersegurança, porque a gente ensaiou um ano, e muito.

Zeca Camargo: Aliás, no caso, você era protagonista e era o seu primeiro trabalho. Você se lembra um pouco desse clima na época, da repercussão que teve? Era muito surpreendente, não é?

Giulia Gam: É, foi incrível.

Zeca Camargo: Você estava preparada?

Giulia Gam: É que ali a gente ensaiou um ano e meio, mais até, e eu tinha todo um aval e uma segurança de um diretor como o Antunes. É difícil quando você não tem mais o aval de um diretor e que você tem que fazer com as próprias pernas [ri].

Zeca Camargo: E ele trabalhava com você essa mentalidade do tipo: não importa o que vier, você continua fazer o seu trabalho? Como ele lhe dava essa segurança?

Giulia Gam: Não, mais pelo crivo dele, de ele gostar ou de ele não gostar, quer dizer, eu acho que a dificuldade de sair do Antunes era exatamente essa, ou [sair] de qualquer grupo, porque você cria uma linguagem comum muito forte, centralizada em uma pessoa que te dirige, ele que me ensinou tudo, me formou mesmo, então quando você sai dali... eu acho que o contraponto do Gerald foi muito interessante, porque foi um contraponto em todos os níveis. É como a minha primeira família: você pode odiar seus pais, ir por um caminho oposto, mas sempre vai ser em comparação aos seus pais, então a primeira referência eu acho superimportante. A minha primeira referência é a Julieta com o Antunes, quer dizer, qualquer coisa que eu fizer, inconscientemente, vai estar relacionada a isso.

Zeca Camargo: Mas entre Antunes e Gerald, teve um gap [intervalo] teatral pelo menos. E aí você ficou meio perdida?

Giulia Gam: Eu não queria fazer teatro exatamente porque não tinha segurança, aí que eu fui procurar um olhar eletrônico, outras formas de linguagem, cinema, com o [cineasta] João Batista [de Andrade, com quem fez O país dos tenentes], com outras pessoas. Aí eu senti [segurança] com a Fernanda Montenegro, porque depois do pai veio a mãe [risos], e aí, tudo o que o pai me mostrou do lado internacional, das viagens, das exigências, da intelectualidade, ela me mostrou do nacionalismo, do Brasil, uma pessoa que optou por ficar no Brasil, porque ela é uma pessoa que, na época, também foi convidada para ir para a França, não sei com quem, ela recebeu um superconvite e optou por ficar. Então, eu comecei a conhecer o Brasil, a vida do Brasil, de uma crise...

Jorge Escosteguy: Giulia, você falou do contraponto entre o Antunes e do Gerald Thomas. Você poderia ser mais explícita nesse contraponto?

Edmar Pereira: Deixe só eu falar uma coisa, porque se supõe que o Antunes seja autoritário, impositivo, e o Thomas parece ser muito delicado, ele parece enredar muitos os atores. Esses estilos para você são a mesma coisa, são duas pessoas tentando chegar ao mesmo fim ou você se sente melhor ou mais confortável com um ou com outro?

Giulia Gam: [Sobre] o Antunes é difícil dizer, hoje em dia, porque faz muito tempo; eu já fui várias vezes lá e eu tenho certeza que mudou muito, ele também já está em outra faixa, totalmente. O Gerald é mais jovem. Agora, é um tratado também falar sobre os dois [ri]. O que eu posso dizer que me surpreendeu no Gerald, que talvez seja mais fácil dizer do Gerald, que daí dá para entender o Antunes... eu tive uma relação muito especial com o Antunes também, porque a gente se deu muito bem, talvez até pela minha inexperiência e a minha espontaneidade, eu não tinha nenhuma mitificação em relação a ele, nenhuma referência, então o que ele soltava eu respondia, e o que eu respondia já o estimulava. Então, o nosso trabalho nunca teve o menor conflito, mas eu não tinha nenhuma referência. Quando eu saí dali que eu comecei a ver milhões de possibilidades, quer dizer, eu vivia em um mundo fechado, aí que eu fiquei em uma supercrise mesmo, acho que foi a mais violenta, na Europa com dinheiro e sem saber o que fazer. Aí que eu conheci o Peter Brook e aí ele me ajudou.

Edmar Pereira: Quando você foi trabalhar com Gerald, você entrou em um outro mundo, onde você supostamente, ou teoricamente, você estaria ocupando, ou tomando uma parte do espaço da que era a atriz, a porta-voz, a musa dele. Vocês se deram bem?

Giulia Gam: A Bete [Coelho (1963-), diretora de teatro e atriz brasileira], não é?

Edmar Pereira: Vocês dividiram bem esse espaço?

Giulia Gam: O projeto com o Gerald começou pela Bete, porque a gente já tinha trabalhado antes no Antunes e a gente tinha muita vontade exatamente de duas atrizes, independente de seus diretores, quer dizer, eu do Antunes e ela do Gerald, porque fui a musa dele na época da Julieta, [vontade de] que a gente se encontrasse e tentasse criar alguma coisa, partindo de duas atrizes. Aí a gente começou procurar textos e tal e caímos em [James] Joyce [(1882-1941) escritor irlandês], que o Haroldo recomendou, [mas] Joyce não dá, vamos ao [Samuel] Beckett [(1906-1989) escritor e dramaturgo irlandês, um dos fundadores do Teatro do Absurdo], e aí chegamos ao Gerald. Quando ele, enfim, sugeriu o Fim do jogo [a peça Endgame, de Beckett], eu falei para a Bete: “Olha, Bete, talvez tenha mudado o caminho, porque você queria experimentar alguma coisa fora do Gerald, e para mim um trabalho com você, um trabalho com ele me atrai”, entendeu? Porque o Gerald levou o projeto para a companhia... Eu e a Bete criamos uma cumplicidade que eu acho raro, assim, de duas atrizes jovens poderem ter uma troca, eu acho que nós duas nos respeitamos muito e fomos supergenerosas uma com a outra, até por confiar talvez... por sermos tão diferentes, e a gente sabe que uma jamais vai interferir no canal da outra.

Aimar Labaki: Essa crise que você disse que foi a mais grave para você, que foi quando você saiu do Antunes, não é coisa só de gente jovens, vários atores, excelentes atores saíram do Antunes e passaram dois ou três anos para saber onde ficava a porta da saída. O próprio [ator] Cacá [Carvalho], que fez aquela obra-prima que era o trabalho dele no Macunaíma, também levou uns anos para se encontrar. A que você atribui essa crise, que não era só sua?

Giulia Gam: Eu, particularmente, senti primeiro que você trabalhando... eu trabalhei três anos com ele, dentro de um grupo, e a gente trabalha muitas horas e eu ainda estudava de manhã, quer dizer, aquilo é tão absorvente...

Aimar Labaki: Você se formou na escola?

Giulia Gam: Eu me formei no terceiro colegial, prestei até vestibular para sânscrito [risos], só porque sabia que não ia fazer mesmo, mas eu queria ver como que era o vestibular. Enfim, eu sentia que... tanto que uma vez apagaram-se as luzes do teatro e ninguém sabia o que é que era e parecia que era um golpe que estava tendo no país, aí que a gente se tocou e falou: “Cara, a gente está aqui, de repente desmorona a parede e a gente nem sabe que teve uma guerra” [lá fora].

Aimar Labaki: Vocês trabalhavam de 12 a 12, não é? De meio-dia à meia-noite.

Giulia Gam: De 12 a 12, e eu ainda estudava das 7h às 11h, quer dizer, era uma loucura. Então, você fica muito ligada a ele e ao que é desenvolvido dentro daquele grupo e filtrado por ele. Eu, pessoalmente, senti uma hora que eu adorava o trabalho com ele – foi o que eu falei para ele –, mas eu não tinha tido nem uma adolescência ainda para formar o mínimo de opiniões, para poder argumentar ou discutir, eu não tinha nem referência, então a informação dele entrava inteira. E uma hora eu falei: eu tenho que saber se eu gosto desse quadro ou se eu gosto porque o quadro etc... E outra coisa que eu acho que é perigosa, que era perigosa, eu não sei se ele mudou, é que a gente não ganhava nada, então todo mundo tinha uma ideologia muito grande de estar trabalhando ali, e se acreditava em toda uma postura, em toda uma posição, até política, enfim, da postura de um ator dentro de um grupo e tal. E depois, quando você vê que essa própria estrutura é falha, que somos humanos e que ele é humano, então, acho que eu, pelo menos, tive uma decepção muito grande, decepção de primeiro amor assim, de primeira frustração.

Jorge Escosteguy: Giulia, antes de encerrar esse bloco, você acabou não respondendo sobre o Gerald Thomas. Eu queria que você falasse então sobre o Gerald Thomas.

Aimar Labaki: E não respondeu sobre o fim dos saraus também. Terminaram ou não?

Giulia Gam: Bom, aí eu fui viajar com a peça, mas eu acho que é uma coisa genial assim, eu posso até depois falar mais.

Aimar Labaki: Você não vai fazer em 92? Verão 92, você não vai ter [...]?

Ninho Moraes: Uma temporada de sarau, nova temporada?

Giulia Gam: Podemos fazer, acho que agora pode começar discretamente, de novo, o sarau. Virou um auê; eu acho que a idéia era tão boa que ninguém acreditou, então eu virei Olívia Guedes Penteado, e o sarau virou, porque é genial, você junta pessoas para discutir coisas. A gente conseguiu fazer um [sarau] secreto com 25 pessoas, foi muito legal.

Jorge Escosteguy: E o Gerald Thomas?

Giulia Gam: Gerald Thomas, eu acho que o que foi superimportante é que eu fui com essa expectativa, muito de intérprete, como o Antunes, por exemplo, de você receber o que o diretor vai te dar. Então, como você vê de fora os trabalhos, você tem uma impressão de que tudo é milimetrado, essa coisa formal que ele tem e tal, e a minha surpresa foi ver que ele trabalha com o material humano que ele tem, humano no sentido da personalidade assim do indivíduo mesmo, mais do que o próprio Antunes. Quer dizer, lá a gente até entrava em toda uma proposta, um conteúdo, uma peça e tinha toda uma transformação para passar aquilo, não é? Claro, é sempre você, não tem como fugir disso, mas o Gerald principalmente... e eu ainda peguei um texto que era Beckett, quer dizer, foge totalmente de qualquer psicologismo, realismo, qualquer coisa assim. Então ele tem que trabalhar com o seu material, com a sua experiência, com metáforas próprias. Então eu me vi tendo que emitir opiniões, tendo que me colocar enquanto pessoa, e não tanto enquanto intérprete de uma idéia de um diretor. Eu acho que isso que mudou muito: se antes eu estava como aprendiz, de repente ele me exigiu uma postura de uma profissional que chega e propõe e, através disso, ele vai criando um espetáculo. Então eu acho que até essa busca minha de técnica é em função do Gerald.

Jorge Escosteguy: Nós voltamos em seguida a esse assunto, o Roda Viva faz um rápido intervalo e volta daqui a pouco entrevistando hoje a atriz Giulia Gam. Até já.

[intervalo]

Jorge Escosteguy: Voltamos com o Roda Viva, que hoje está entrevistando a atriz Giulia Gam. Giulia, no primeiro bloco, você passou umas duas ou três vezes pelo dinheiro, [dizendo que] a TV deu dinheiro, falou um pouquinho do negócio do Antunes. No final, você disse uma coisa perigosa que tinha com o Antunes, no Macunaíma, é que não se ganhava nada. Tem uma frase do Antunes que diz – você, en passant, mencionou – que o ator com estabilidade financeira se acomoda. Você acha que o ator com estabilidade financeira se acomoda?

Giulia Gam: Bom, eu vi muitos exemplos disso, não de acomodar, eu acho que...

Jorge Escosteguy: Por exemplo?

Giulia Gam: Eu acho que o que me impressionou muito na Globo, por exemplo, eram pessoas muito jovens que, de repente, tinham um salário super... uma estrutura monetária muito grande, que é rara para pessoas de 20 e poucos anos, e que daí criavam toda uma estrutura de vida e aí não podiam mais abrir mão disso para experimentar o risco. Porque qualquer coisa que fuja dessa indústria que é televisão, eu falo da televisão porque é a indústria que tem, se fosse uma indústria de teatro ou de cinema, enfim... Mas, então, têm que manter aquela estrutura de vida e não abrem mão para experimentar outras coisas, então eu acho uma judiação, porque a televisão é um veiculo para o qual você dá o seu trabalho, você não tem um tempo de elaboração, você pode aprender a fazer mais rápido, técnica de televisão, tem gente que faz superbem e é bárbaro na televisão. Mas você tem que ter um tempo de se alimentar, senão você não tem o que dar. Então, eu ficava muito impressionada com isso, e eu nunca quis ter contrato exatamente para não me obrigar...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Você ter um certo nível de tensão...

Giulia Gam: É, talvez seja besteira minha, entendeu? Talvez até com uma grana eu possa fazer coisas mais tranqüilamente.

Ninho Moraes: Eu queria saber, Giulia, você com o seu currículo, como todo mundo falou todo o primeiro bloco aqui, para quem viu, daria para você chegar aos 38 anos [de carreira] tranqüilamente, somando tudo, se você quisesse. O que é que sobra para você como pessoa, você está namorando, você namorou muito esse tempo todo, você acha que ainda falta namorar muito?

Giulia Gam: Muito [risos].

Ninho Moraes: Eu tenho a maior curiosidade de saber isso de você.

Giulia Gam: Eu acho que O primo Basílio foi até um marco disso assim, que foi aí a segunda crise de Giulia, porque ali eu tive uma sensação muito clara disso, que foi um trabalho superdesgastante, eu conhecia a história, mas eu estava fazendo mais pela importância do trabalho do que por uma identificação com o papel, pelo contrário, era um sofrimento que me era estranho. E é super-realista, e vai se atrofiando, vai morrendo por não conseguir lutar. Então eu entrei naquilo e fui mesmo definhando. Quando acabou aquilo, eu tive um estresse mesmo, que o médico falou: “Olha, se você continuar nesse ritmo, daqui a dois anos você vai ter algum problema grave de saúde”. Eu devia ter 22 [anos].

Ninho Moraes: É coisa para quem tem muito mais idade.

Giulia Gam: Então eu assustei, eu assustei também porque eu comecei a perceber... foi um trabalho de cinco meses, em que eu tinha a segunda-feira de folga, já tinha decorado os textos, mas decorava todos os textos da semana e gravava muito durante a semana. E tinha um chofer que me levava e me trazia, eu dormia, ele esmurrava a porta, e eu ia, e [estava] convivendo com pessoas de outra geração: o [ator, diretor e produtor] Daniel Filho [1937-], enfim, pessoas bárbaras dentro do que fazem, mas de outra geração. Então, quando acabou esse trabalho, eu vi que eu não tinha casa para voltar. Eu estava acostumada a sair de um trabalho, já engatar no outro, então já tem um hotel ou a casa onde eu ia ficar, ou viajar... Então quando eu percebi que eu não tinha nenhuma referência da minha vida particular, se é que se pode ter assim, eu assustei, porque de repente as pessoas ficavam felizes de acabar um trabalho e voltar para os maridos, para as casas, e eu não tinha para onde voltar, eu tinha uma mala... Aí que eu comprei um apartamento, depois de muito tempo, mas aluguei um. O maior alívio da minha vida foi ver um armário com tudo que era meu ali. Eu tinha quatro calças da mesma cor. E logo depois disso também eu conheci os Titãs na Bahia, e foi muito chocante porque eles estavam dizendo diretamente, pelas letras das músicas deles e tudo, um trabalho de grupo, quer dizer, não era um líder, era um grupo superteatral, mobilizando uma geração ali que estava naquele show... Esse contraste de que eu estava saindo com os cabelos oxigenados, eu tinha engordado, eu até cheguei para eles e disse: mas vocês conhecem? Vocês viram O primo Basílio ? Com esse contraponto, eu falei: não, eu quero estar mais próxima de mim mesma.

Aimar Labaki: Foi aí que você teve a adolescência?

Giulia Gam: Foi aí que eu tive a minha adolescência [ri]; fiquei oito meses sem trabalhar.

Zeca Camargo: Você disse que encontrou os Titãs e que deu um barato, porque eles estavam falando para a geração deles. Você nunca teve um diálogo direto com a sua geração, não é?

Giulia Gam: Nunca tive.

Zeca Camargo: Nem em teatro?

Giulia Gam: Nem em teatro.

Zeca Camargo: Isso te incomoda?

Giulia Gam: É uma coisa que me incomoda. Quando eu vou ver, realmente, talvez a coisa mais próxima um pouco seja até o próprio Gerald; mesmo A cena da origem, era um texto do Haroldo que falava sobre Gênesis [primeiro livro do Antigo Testamento], era uma coisa dificílima... a Bia também foi uma tentativa, porque ela tem 30 e poucos anos e já é uma segunda geração, já é mais próxima. A Bia era uma pessoa que eu imaginei que a gente poderia de repente ter feito alguma coisa. Na época em que ela fez o Orlando e tal, ela tinha idéia de formar um grupo, eu até cheguei a participar do começo do grupo, mas estava com a novela e não queria misturar as coisas. Mas eu sinto isso, eu não sei no teatro, agora está surgindo muita gente jovem fazendo coisas. Eu também tinha muito medo, eu acho, de fazer simplesmente. Eu acho que o que me mudou muito em termos de conhecer o rock é que você [...] não precisa necessariamente ter uma técnica para fazer aquilo, é coisa que vem da alma, do sangue, então têm uma confiança um pouco mais na sua vivência, na sua experiência, seja ela qual for, da idade que for, do país que você passou, e não essa coisa dogmática de ter um mestre. Eu acho você tem de aprender, [ser] o aprendiz... eu acho que essas duas correntes, eu tinha muito conflito com isso, e acho que os Titãs fizeram muito com isso, porque é um grupo que veio de escola, e são eles. Então, essa autenticidade de um grupo, de uma idéia em contraponto a um mestre.

Zeca Camargo: Tem algumas pessoas com quem você já trabalhou também, que você até já mencionou, mas além de você não falar para a sua geração, você trabalhou com gente que não era da sua geração.

Giulia Gam: Eu sempre procurei pessoas mais velhas, mais experientes para aprender, e agora eu estou tentando ver, chegar perto de mim e ver o que eu faço por mim mesma assim [ri]. Não sei se é a hora ainda, não sei se é o meu caminho, mas enfim...

Wagner Carelli: O que é que você faz? O que você lê? O que você assiste? O que você gosta na vida?

Giulia Gam: Depende muito. Antes, isso também era uma coisa que eu questionava, porque tudo que eu via, que eu lia, que eu fazia era diretamente relacionado ao trabalho que eu estava fazendo, diretamente, então era um condicionamento constante, quase de um desportista.

Wagner Carelli: Você não fazia porque gostava? Você não lê [o que quer]? O que você faz, do que você gosta, o que é que você lê?

Giulia Gam: Eu gostava, claro, mas era muito associado a uma procura de um trabalho que me apaixona, quando eu vou fazer um tal trabalho, eu só tenho olhos para aquilo e leio sobre aquilo, me enfio naquilo e entro totalmente naquilo.

Wagner Carelli: E agora, o que você esta fazendo?

Giulia Gam: Agora, eu estou achando legal ter umas férias, me dar espaços, até o trabalho com o próprio Gerald, que tem espaços, não é uma coisa contínua, não é um cara que trabalha 12 horas por dia e tal. Até isso, que por um lado é ruim, porque se trabalha pouco, mas é bom porque você fica em casa... eu não consigo me acostumar, porque a minha casa não está pronta até hoje, entendeu? É um colchão, um acampamento.

Wagner Carelli: O que você está respondendo é a respeito do seu trabalho. O que você faz em casa? Você vê televisão, você vai ao cinema?

Giulia Gam: Pois é, ultimamente eu tenho feito coisas independentes do trabalho, até vou muito ao cinema, adoro a Cinemateca, por exemplo. Adoro, na França, agora nesta viagem, eu quis muito ver os diretores de 30 anos, o Leos Carax, o [Luc] Besson, enfim, essa turma que está fazendo coisas agora. Tem o [filme francês] Delicatessen [de 1991, dirigido por Marc Caro e por Jean-Pierre Jeunet], que também é bárbaro, ou mesmo em vídeo, enfim, cinema é uma coisa que eu vejo muito.

Aimar Labaki: A vida te tratou bem fácil, tanto no teatro como no cinema, as coisas vieram rápido e o público também te adora, isso a gente sabe. Como é que a crítica te tratou nesses anos todos? Como é que foi tua relação com a crítica? E segunda coisa, a crítica de alguma forma, contribuiu para esse crescimento rápido? Eu digo até com tranqüilidade, porque a gente tem um episódio na vida da gente que é engraçado, porque a gente é superamigo e eu desci um cacete legal em cima de você...

Giulia Gam: Desceu [risos].

Aimar Labaki: ...pelo qual eu não me arrependo, que foi n' A cena da origem, que eu achei um grande equívoco, inclusive o teu trabalho. Eu queria saber da tua relação com isso um pouco.

Giulia Gam: Eu acho que A cena da origem foi um marco disso também, porque eu vinha de muita aceitação nesse sentido, não é? Os trabalhos que eu fiz sempre foram muitos legais, então Romeu e Julieta, enfim, qualquer coisa ia superbem, aí teve a televisão... A cena da origem foi um equívoco também, porque era para ser um evento e que não aconteceu como tal, teve uma expectativa de uma peça pronta, então não teve... A coisa não foi feita como evento, foi logo em seguida de uma supermatéria na Veja falando que eu era a atriz mais capacitada tecnicamente, enfim... Então, causou uma expectativa enorme, virou um solo meu, sendo que a coisa era um trabalho do Haroldo e do [compositor] Livio [Tragtenberg] de 10 anos sobre... Então, ali a crítica foi feroz. Tem críticas que foram superconstrutivas, a sua crítica foi super... respeito a sua opinião. E teve outras que foram preconceituosas e levianas em relação à televisão, como falar: “sorriso global de Giulia Gam”, quer dizer, uma coisa sem pé nem cabeça, entendeu? A gente está falando de um texto, você pode falar qualquer coisa, que está uma bosta, qualquer coisa, mas não “Giulia Gam com seu sorriso global”. Eu acho tão deslumbrados os repórteres que vão contra a Globo assim como as pessoas que adoram a Globo, entendeu? Eu acho que é um deslumbramento ao inverso.

Aimar Labaki: Mas a crítica serviu para você refletir sobre o teu trabalho?

Giulia Gam: Ali eu levei uma porrada muito grande, porque era um trabalho que, para mim, era um resgate ao teatro, foi onde eu vi também que são técnicas diferentes quando você trabalha com imagem, quando você trabalha no palco. Então, se eu tive que mudar para fazer televisão, eu tive que voltar para fazer teatro. E eu senti que já não me era mais tão íntimo aquele espaço, aquele público, a projeção e o domínio daquilo. Eu fui com muita paixão nessa volta, então para mim doeu muito ver que a coisa não acontecia, eu fiquei com muito medo, eu falei: meu Deus, será que não tem volta? Será que o que aconteceu antes no teatro é porque eu era muito jovem, e era quase uma coisa, enfim...? Então eu pensei muito sobre isso, eu acho que por isso que eu também resolvi me fechar um pouco e radicalizar as propostas, tanto é que estava fazendo a novela, então acabei a novela, também não quis mais fazer coisa junto, a novela e o teatro, eu acho que o teatro é um bicho muito ciumento e possessivo. Assim que acabou a novela, eu fui fazer o trabalho com o Waltinho, que foi genial, aí começou o trabalho com o Gerald, aí começou o contato com o Haroldo, que já vinha d' A cena da origem, e aí os saraus, os encontros, e aí o Júlio Bressane, então começou todo um trabalho de aprofundamento.

Fernando Meirelles: Televisão, você não tem projeto de voltar tão cedo assim?

Giulia Gam: Eu adoro a televisão...

Fernando Meirelles: Mas você estava com certos preconceitos de que você só dá, só dá... Eu acho que é uma linguagem diferente, na verdade, é uma linguagem da espontaneidade, sua primeira emoção está lá, não tem jeito de... Não sei por que todos os atores e a crítica têm essa coisa de [preconceito]...

Giulia Gam: Você tem razão.

Fernando Meirelles: Eu sinto que você tem um pouco disso também.

Giulia Gam: Eu tenho esse ranço ainda. Mas eu acho que tem duas coisas que ficam misturadas: uma coisa é o trabalho em si e outra é a Globo e a importância da Globo, e a coisa como acontece no Brasil. Então essas coisas são muito interligadas, quer dizer, trabalhar com vídeo... a novela, se não fossem os 300 capítulos que tem para serem feitos...

Fernando Meirelles: Isso é cansativo pra caramba.

Giulia Gam: ...se você for pensar, é uma loucura, chega uma hora em que você vai lá... [...] não teve tanto problema assim, mas os papos são comuns, são banais: ah, você para onde? Você vai tomar um suco? Você não tem nem muito como... talvez com um outro ator que trabalhe mais com você, mas cada um tem um horário diferente, cada um chega... você tem [mais contato] com o diretor um pouco, mas tem cenas que são geniais, eu adoro televisão, mas eu acho que tem também um questionamento talvez com a própria industrialização da coisa. Eu acho que é o que não está acontecendo agora, eu estou surpresa de ver tanta gente fazendo teatro, entendeu? É uma pena não ter mais o cinema, mas talvez o teatro ainda seja barato e também não tem tanto prestígio assim fazer televisão, e o nível das novelas também caiu muito.

Fernando Meirelles: Não tem tanto prestígio num determinado segmento, não é?

Giulia Gam: É, você tem uma coisa popular, social e o poder aquisitivo, porque você faz publicidade, então você ganha grana, tem acesso a um monte de coisas, e às vezes o trabalho é legal também, mas...

Fernando Meirelles: Mas construir um personagem ao longo de oito meses, isso não tem interesse? Quer dizer, a coisa tediosa do dia-a-dia mata esse gosto, o barato de descobrir, de cada dia você colocar... porque no teatro você constrói o cara, quer dizer, você afina, mas você elabora, elabora, elabora e aí está pronta a coisa. Você mexe pouco durante a apresentação, e a televisão tem a coisa de que no ar você vai mudando, você vai construindo. Isso deve ser uma coisa interessante, eu sinto que é.

Giulia Gam: É, pensando agora, eu acho [que sim], [mas] pode ser que se eu estiver cinco meses lá, aí eu vou estar ah... [arrependida], por que eu aceitei?

Edmar Pereira: No começo do bloco passado, você falou de pessoas que você mitificava, admirava. Você citou sempre encenadores, pessoas que passavam conhecimento teórico, meio abstrato, agora a sua carreira explodiu muito cedo, mas você teve tempo de ser fã, de sonhar em ser como [determinada atriz]? Tinha atrizes em que você se fixava? Tem alguma atriz que está dentro de você, alguma coisa que você viu no cinema do passado, ou do teatro, atrizes que você seguia assim?

Giulia Gam: Tem, quer dizer, eu não sei lhe dizer uma especificamente, mas...

Edmar Pereira: Eu estou vendo esse seu cabelo que lembra a Louise Brooks [(1906-1985) atriz norte-americana], por exemplo.

Giulia Gam: Louise Brooks, cinema expressionista total. Aí descobri que tem uma... porque a Louise Brooks é [a atriz que inspira] a Bete, então a minha [risos] é a Asta Nielsen [(1881-1972) atriz dinamarquesa], porque eu descobri que o cinema expressionista começou na Dinamarca, depois que teve todo um movimento expressionista muito forte na Dinamarca, o [...] era o diretor e depois a coisa aconteceu na Alemanha, e até a Asta Nielsen filmou com o [cineasta austríaco Georg Wilhelm] Pabst [1885-1967] também.

Edmar Pereira: Aqueles olhos carregados de preto.

Giulia Gam: Eu não consegui nenhum material dela, mas depois eu vi aquele olhão assim o cabelo assim completamente louco, entendeu? Vai ver que eu estou mais para Asta Nielsen do que... Mas tem Ingrid Bergman [(1915-1982) atriz sueca], uma época eu fui super...

Eugênio Bucci: E no Brasil?

Giulia Gam: A Bete Coelho é uma pessoa que eu admirava... admiro muito, é que agora ela está mais acessível, mas era um mito. A gente foi trocando, ela foi experimentar televisão, eu fui experimentar o teatro com o Gerald, mas é uma pessoa por quem eu tenho uma profunda admiração, e outras atrizes também da minha geração.

Wagner Carelli: Quem você levaria para um sarau ideal? Pelo menos seis pessoas.

Giulia Gam: Tem que ser gente apaixonada por texto, de alguma maneira.

Wagner Carelli: Mas diga nomes.

Giulia Gam: Nomes?

Wagner Carelli: Você está sempre escapando dos nomes.

Giulia Gam: Ah, não sei, eu acho que tem toda uma turma que a gente reuniu. Tem o Haroldo, que é sempre o padrinho, tem toda uma geração de poetas que me é mais próxima, que é o Arnaldo Antunes [(1960-) músico, poeta, compositor e artista visual], todo um pessoal que fez várias revistas gráficas, a [revista gráfico-poética] Atlas, enfim, tem várias revistas, tem o [artista plástico José Roberto] Aguilar, que é um performático.

Wagner Carelli: Mas em termos universais.

Giulia Gam: Ah, universais?

Wagner Carelli: Seis convidados básicos assim para o seu sarau.

Giulia Gam: Eu não tenho nenhuma... Ah, tem tanta gente, eu não sei dizer o nome assim. Se eu pudesse convidar o... ah, esqueci o nome dele...

Jorge Escosteguy: Se esqueceu, não era tão importante.

Giulia Gam: Não, é que eu estou pensando no William [...].

Eugênio Bucci: E sobre a repercussão internacional do filme do Walter Salles Júnior, a que você atribui exatamente essa eficiência a que você se referiu na comunicação que ele tem no exterior ou no sucesso que ele possa vir a fazer, pelo seguinte: me ocorrem assim coisas brasileiras: [o cineasta] Glauber Rocha [1939-1981] teve uma boa repercussão...

Giulia Gam: O Cinema Novo.

Eugênio Bucci: É, e não tinha nenhuma concessão, é um cinema absolutamente radical, filiado a si próprio, nenhuma concessão estética. O Babenco também, com o [filme] Pixote [1981], se projetou internacionalmente de forma definitiva. E agora esse cinema mais bem-feito tecnicamente, mais refinado assim, que levou o [cineasta brasileiro] Neville d'Almeida a uma declaração, parece que pública, não sei se você soube, ele chamou o filme de “ inauguração do cinema mauricinho”, porque ele seria muito [...].

[...]: Que baixaria...

Giulia Gam: O que é mauricinho? Eu conheço ricardão, mauricinho não [conheço].

Eugênio Bucci: O mauricinho é a figura...

[...]: Segundo o [músico] Lobão, é o presidente [Fernando Collor de Mello].

Eugênio Bucci: ...é a figura certinha, certinha demais.

Ninho Moraes: O pessoal da favela chama de mauricinho quem usa tênis bonito; eles vão lá e roubam o tênis.

Giulia Gam: Ah, entendi.

Ninho Moraes: É uma gíria que surgiu na favela carioca.

Eugênio Bucci: Então, fundindo com o que ele disse, você gosta do resultado do filme? Você acha que esse ar impecável, que tem a ver com essa comunicação, você sente realmente pujança, alma dentro do filme?

Giulia Gam: Eu acho que esse filme é muito interessante principalmente neste momento. Tanto é que é muito interessante ver que está indo bem fora, não é? Porque sempre achei que, de repente, ele podia ficar fechado, porque o filme bem-feito no Brasil é uma conquista, agora o filme bem-feito nos Estados Unidos ou na Europa é um dever, não é? Então, isso é uma surpresa. Depois, eu acho assim, o Waltinho vinha de publicidade, então a grande crítica que podia ter em relação a ele é exatamente isso, de ele ter um virtuosismo de luzes e técnicas e a coisa se perder, não ter uma idéia ou conteúdo ou alguma coisa. Eu acho que é um filme muito dirigido assim, eu até agora tenho que conversar mais com o Waltinho para ver quais são as intenções realmente dele. Mas eu acho que é um filme que foi dirigido para o mercado, que tinha o objetivo de conquistar certas coisas, de lançar um filme de [bom] nível técnico para fora e conquistar um mercado, sair exatamente dessa prisão em que a gente acaba ficando, dessa falta de comunicação, de troca. Então, eu acho que o filme fugiu de uma coisa assim extremamente técnica, de luzes e não-sei-quê e tal, coisas que eu já vi em cinema brasileiro, em que a luz não tem nada a ver com que está acontecendo, é brilhante, mas não tem nada a ver. Teve uma época em que você só via filme azul, com luzes e não-sei-quê e a história não tinha nada a ver com aquilo. Então, eu acho que ele conseguiu uma coisa legal, e eu sei que o filme tem muito mais material do que está ali...

Jorge Escosteguy: Dizem que a primeira versão dele tinha quatro horas.

Giulia Gam: Mais, tinha cinco horas, era enorme. Então eu sinto muita falta do molho do filme, entendeu? Eu acho que ele é contado completamente en passant assim, não é? Eu sinto falta disso. Talvez porque eu conheça muito, não sei. Eu acho que ele também tem uma divisão, isso que eu gostaria de conversar com o Waltinho, ele resolveu optar... eu achei isso genial da parte dele, ele criou uma identificação com o filme... Eu achei que o filme ia ser muito criticado por ser falado em inglês, por mudar, como se fosse criar um ufanismo assim, uma crise nacional: como? Falado em inglês? Muda o personagem? Já não é mais o...? Isso não teve, eu acho genial isso, uma crítica de o filme, de repente, estar se vendendo ao mercado americano. Enfim, massacrar os valores brasileiros...

Eugênio Bucci: Isso não teve, até porque não teria...

Giulia Gam: Mas era o grande medo que a gente tinha do filme era esse.

Eugênio Bucci: Mas houve uma crítica muito procedente de dizer, enfim, sem entrar nos méritos propriamente do filme, mas com uma argumentação bastante lógica, dizer que todo mundo afirmava que não parecia um filme brasileiro. Então parecia o quê? Um filme americano. O filme então é feito aos moldes do filme americano. Você concorda com isso ou não? Você acha que parece um filme americano?

Giulia Gam: Eu acho que não.

Jorge Escosteguy: Um filme americano médio, ou seja, comercial comum, normal...

Giulia Gam: Claro. Eu acho que não, eu acho que o Waltinho tentou criar uma identificação dele com esse fotógrafo, então ele conseguiu se colocar ali, não foi uma encomenda que ele executou. Ele tem uma identificação com aquele filme, isso foi genial. Eu acho que ele jamais teria uma identificação com o advogado da Lapa, entendeu? Que é o estrangeiro no Brasil assim, e ele é um estrangeiro no Brasil. Então, eu acho que ele primeiro tentou criar essa identificação, e ele começa numa coisa existencial, que talvez ele até pudesse ter aprofundado mais, não sei, talvez até para fugir mais de qualquer filme B americano. Só que chega uma hora em que ele tem que contar a história. Então, ele volta para a historinha e conta rapidinho a historinha dos disquetes e tal, e de repente você está indo num caminho e volta para o outro. Então, ele nem vai totalmente só no personagem [que] abandona os disquetes e nem também faz uma super-história de suspense e disquetes... então você não sabe muito bem, quer dizer, quem leu sabe que o “P” era do Lima Prado, que a Bolívia... tem um monte de coisas na história que passam muito rápido.

Fernando Meirelles: Na verdade, a montagem cortou, porque isso foi filmado, não é? Quer dizer, o filme de cinco horas tem isso.

Jorge Escosteguy: O problema do filme foi a montagem? Ele foi montado errado?

Fernando Meirelles: Não, [o problema] é o tempo, são cinco horas que você tem que pôr em um hora e meia, muita coisa vai rodar.

Giulia Gam: E ele deixou um pouco de cada coisa. Eu acho que isso é uma coisa minha também, que conheço super o filme e é uma opinião minha, eu não sei como a coisa...

Jorge Escosteguy: De repente, o advogado da Lapa pode não entender.

Giulia Gam: Exatamente [ri]. Mas eu gosto do filme, eu gosto bastante.

Ninho Moraes: Eu quero voltar um pouco a uma pergunta bem de telespectador: você é filha única, você sempre gostou de ser filha única ou você queria ter aquelas famílias enormes?

Giulia Gam: Eu odiava.

Ninho Moraes: Isso lhe deu força de ficar compenetrada, fazendo coisas, de reunir pessoas para inventar coisas? Você odiava o quê?

Giulia Gam: Eu odiava ser filha única, eu queria ter irmãos, eu queria ter uma família grande. Acho que é por isso que eu vivo sempre querendo juntar gente.

Eugênio Bucci: Você quer ter filho?

Giulia Gam: Quero, quero ter filho, quero ter tudo assim [risos].

Zeca Camargo: Você no primeiro bloco mencionou que [...], isso lhe faltou, na verdade? Como é a sua família?

Giulia Gam: Acho que eles sempre me apoiaram, até excessivamente, não é? Se deixasse, eles até me expulsavam de casa para eu ir, para eu ir, para eu ir, [mas eu pensava] eu quero ficar, eu quero ficar. Então, genial os dois. Mas eu acho que o filho [único], pelo menos na minha experiência, você fica muito responsável pelos pais ou pela relação. Já não é mais um filho e os pais, é um triângulo, entendeu? Então, eu vejo que um pouco do humor ou da graça do descompromisso... [se] você tem um irmão, você já vai brigando desde pequeno, ou já discute desde cedo, fica uma coisa já muito adulta.

Aimar Labaki: Eu queria que você falasse, eu sei que não é seu departamento, mas eu queria que você falasse de política. Em quem você votou? Esse desencanto todo... e o poder que você tem na mão, porque você tem o poder de comunicação grande com a sua geração, ainda que você não fale através dos seus trabalhos com ela. Você não poderia ou deveria até mobilizar, se não em termos de política geral, ao menos de política cultural, por exemplo, forçar para que alguma coisa acontecesse nesse sentido. Não lhe passa pela cabeça? Em quem você votou na última eleição?

Giulia Gam: É engraçado, a minha geração...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Giulia, desculpe. O telespectador Carlos Joel também pergunta se você está satisfeita, por exemplo, com o apoio que o governo possa estar dando ao meio cultural, aos artistas etc.

Giulia Gam: Bom, acho que ele não está dando apoio nenhum, não é? Primeiro, que eu acho um absurdo o governo no Brasil, acho que é uma coisa de bufão, sabe? Então, você é esquizofrênico se você é brasileiro, porque eu acho que você tem duas vias paralelas, uma que é completamente clown e farsesca, bufão, que é o governo, e outra que é do marginal, no sentido das favelas, que têm uma organização impecável, quer dizer, se você conhece a coisa de dentro, eles são muito mais sérios e muito mais organizados do que qualquer... a não ser as forças militares do Brasil, mas, enfim, do que aparentemente é o governo, e você tem uma classe média, acho que os brancos de classe média, porque não tem nem a cultura negra, nem são índios, são os que mais sofrem, porque tem o parâmetro americano, europeu e vivem em uma esquizofrenia, porque têm informação e referência de outros países e têm que conviver com essa coisa que não tem nem pé nem cabeça. Então, você não sabe se você ri, se você chora, quer dizer, eu acho que o Brasil também perdeu a graça nesse sentido, ninguém mais está achando tão engraçado.

Aimar Labaki: Você não acha que você tem uma responsabilidade, já que você tem essa coisa...?

Giulia Gam: Eu acho que a minha geração não tem uma vontade de se mobilizar, eu não me sinto...

Eugênio Bucci: Para você, político ou partido não é uma mercadoria da qual você faria propaganda igual a dos prédios?

Giulia Gam: Não, eu acho que sim, quer dizer, eu acho... Eu, por exemplo, jamais pegaria em armas pelo Brasil, esse não é um sentimento que eu tenho. Talvez um francês, um...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] Não pegaria em armas porque não vale a pena ou porque não gosta de pegar em armas?

Giulia Gam: Não...

[...]: Até que gosta, você andou lutando esgrima, não é?

Giulia Gam: É, esgrima.

Humberto Werneck: Onde ficou essa esgrima, onde ficou aquela flauta transversa?

Giulia Gam: Ficaram [ri], não, a esgrima eu ainda pude aproveitar na novela, no Que rei sou eu?, até foi uma das coisas que eu quis fazer, [foram] oito anos de esgrima, disciplina; [sobre] a flauta, eu mudei para um contrabaixo elétrico.

Humberto Werneck: Eu estava lendo a respeito de você, que você fez um curso para tirar o seu sotaque paulista, é verdade?

Giulia Gam: Ah, eu nunca quis tirar o sotaque, mas para O primo Basílio tinha que falar com o erre de “porta” [fala com sotaque português] e o esse paulista: “pastel”, então tinha que...

Jorge Escosteguy: [interrompendo] [em vez de] falar porta e verde [com sotaque caipira].

Giulia Gam: Não, eu tinha que falar porta [com sotaque português], não porta [com carregado sotaque carioca].

Jorge Escosteguy: Você [normalmente] fala porta e verde [com sotaque caipira].

Giulia Gam: Falo porta, verde, articulada [com outro sotaque].

Jorge Escosteguy: Você não terminou a sua resposta.

Giulia Gam: A coisa política.

Jorge Escosteguy: Você não pegaria em armas pelo Brasil por quê? Porque não vale a pena ou por que você é contra pegar em armas?

Eugênio Bucci: Pelas armas ou pelo o Brasil?

Giulia Gam: Não, então vamos por partes.

Aimar Labaki: Em quem você votou você também não falou.

Giulia Gam: Então, por partes, primeiro: eu não votei para... eu votei no primeiro turno, que eu votei para o Antônio Ermírio... não, que é isso? Quem era? Eu já nem lembro mais, quem era o cara?

Aimar Labaki: Mário Covas?

Giulia Gam: Mário Covas.

Aimar Labaki: Roberto Freire, Celso Brant?

Giulia Gam: Não, eu votei no Mário Covas, eu preciso lembrar, porque tem tantos nomes assim. Primeiro eu votei no Mário Covas, enfim, era aquela história do voto útil, não útil, aí eu fui viajar, aí eu fiquei sabendo... foi o único momento em que eu senti falta de não estar no Brasil foi na eleição para presidente, que eu estava viajando, foi essa tentativa [...] aí. E aí eu perdi a eleição, que era o Collor com o Lula, quer dizer, eu votaria no Lula naquela época, não é? Enfim, eu acho que pelo menos... é muito difícil você saber o que ia acontecer [se o Lula ganhasse], não é?

Edmar Pereira: Daquela época, hoje em quem você votaria, se fossem os mesmos?

Eugênio Bucci: Os dois candidatos outra vez...

Giulia Gam: Acho que estava muito difícil escolher entre um e outro. Se eu pudesse, não votaria em nenhum assim, mas entre os dois ficava muito difícil. Talvez, supondo, talvez seja meio ingênuo da minha parte, talvez votando no Lula, o que eu tinha em mente naquela época é que as coisas talvez ficassem mais verdadeiras, no sentido de...

Eugênio Bucci: [interrompendo] Menos esquizofrênica.

Giulia Gam: ...uma atenção maior e... assim como a Erundina na prefeitura de São Paulo, quer dizer, tem erros absurdos, mas pelo menos a acusação e a resposta, eu acho que é mais verdadeira e não tão por baixo do pano, como é um Collor, por exemplo, a gente nunca sabe exatamente o que está acontecendo. Eu acho que se o Lula fosse presidente, a atenção de todo o mundo estaria tão em cima que eu não sei se daria certo, talvez fosse uma loucura, mas pelo menos as conversas seriam mais reais, a ferida estaria mais exposta, assim nesse sentido.

Aimar Labaki: Por que Mário Covas?

Giulia Gam: O Covas, talvez uma das coisas porque, enfim, ele um pouco vai em cima do muro, não é nem para lá nem para cá. Então, na época, eu pensei nisso, porque era o cara mais equilibrado, nem era isso nem era aquilo.

Aimar Labaki: Você não seria a Cláudia Raia do Mário Covas? [Nas eleições de 1989, a atriz Cláudia Raia apoiou publicamente a candidatura de Fernando Collor à Presidência]

Giulia Gam: Não. Eu não tenho nenhum assim com quem eu me identifique totalmente. Eu gostava, pelo que eu vi na televisão, do [Roberto] Freire, por exemplo; adorava o outro de barba [risos].

Jorge Escosteguy: Giulia, e o Brasil e as armas?

Giulia Gam: Pois é, eu acho primeiro um absurdo um presidente esquecer que tem cultura no país, isso para mim já...

Eugênio Bucci: Mas ele esquece que tem cultura no país?

Giulia Gam: Completamente. O cara fez o Plano Collor, esqueceu que tem pessoas que são freelancers, que guardam uma grana para poder... Quando eu vejo assim João Batista...

Jorge Escosteguy: Você tem muita grana bloqueada, Giulia?

Giulia Gam: Eu não, graças a Deus. Senão, eu ia ficar pior ainda.

Eugênio Bucci: João Batista de Andrade, que perdeu dinheiro.

Giulia Gam: João Batista ia filmar um filme há anos, que ele conseguiu [levantar recursos], Ana Beatriz volta de Paris, o cara tem todo dinheiro, vai começar a filmar, bloquearam. Quer dizer, isso é surreal, entendeu? Você ver sete cineastas na mesa de um bar, chorando, porque nunca conseguem fazer, [estão há] sete anos sem filmar. Como é que você pode fazer cinema...?

Eugênio Bucci: O cineasta, não existe aquela história de que chora, esteja Collor no poder ou não?

Giulia Gam: Acho que não, depende do cineasta, acho que quem tem que fazer faz de qualquer jeito. Júlio Bressane faz, o Waltinho faz, quem tem que fazer faz, não importa como. Isso é bom, por um lado, também, quem tem que fazer, tem que fazer porque tem que dar um jeito.

Aimar Labaki: Mas agora, quem tem e quem não tem não está fazendo igualmente porque não tem condições.

Giulia Gam: Agora não está fazendo nada.

Aimar Labaki: Você acha que isso é descaso ou será que pode até ser uma opção, é de propósito?

Giulia Gam: O problema do Brasil, eu pelo menos, eu nunca soube se é tão inteligente a ponto de fazer isso para que bloqueie a cultura de um país, ou se é um descaso ignorante, entendeu? Assim como eu não sei da ditadura, como foi, quer dizer, nada do que aconteceu, eu não sei até que ponto tinha uma ideologia por trás. Você pega um Prestes, a Coluna Prestes, ou você pega qualquer movimento forte no Brasil, você não sabe se – pelo menos para mim, que não vivi isso –, eu nunca sei se a coisa era ingênua, se dispersava em um país enorme, ou se tinha realmente algum poder militar, ele qual fosse, por trás, que tivesse absolutamente controle e que sabia exatamente dispersar qualquer movimento. [ver entrevista com Prestes no Roda Viva]

Aimar Labaki: Pois é, mas depois do Plano Collor veio o Ipojuca [Pontes], que era o secretário da Cultura, saiu com o saldo público de nenhuma realização e algumas “desrealizações”, porque ele desestruturou uma série de entidades, isso é público. E depois, estamos aí com o atual secretário e...

Giulia Gam: [interrompendo] Parece que saiu uma lei agora ou vai sair.

Aimar Labaki: É, tem uma coisa aí em gestação, mas nenhuma realização até agora. isso não lhe parece algo mais do que mero acaso?

Giulia Gam: Eu acho assim, eu participei dessas reuniões lá em Brasília, do cinema. Eu acho que o problema é esse, quando eu falo que o problema do Brasil é se os brasileiros vão poder ficar nele, porque se você tem alguma exigência em relação ao seu trabalho, ou você se acomoda em uma situação aqui de viver como pode e entregar os pontos no sentido de uma busca... porque chega uma hora, você não sabe se é ignorância ou se é impossibilidade mesmo, e coisas caras como o cinema... o próprio grupo, a companhia do Gerald não tem mais produtor, a gente só está fazendo coisas fora porque não tem quem produza no Brasil, [e é] um grupo de vinte pessoas.

Ninho Moraes: Só trabalho internacional mesmo...

Giulia Gam: Só trabalho internacional.

Ninho Moraes : O Peter Brook filma na Índia; o [cineasta italiano Bernardo] Bertolucci filma na China...

Giulia Gam: [...] Então o problema é se os brasileiros não vão sair do Brasil.

Jorge Escosteguy: Giulia, vou insistir pela última vez: as armas e o Brasil.

Giulia Gam: Ah, da luta?

Jorge Escosteguy: Você disse: “Eu não pegaria em armas pelo Brasil”, é porque o Brasil na vale a pena ou porque você é contra pegar em armas contra qualquer coisa?

Giulia Gam: Não, eu não acho que o Brasil não vale a pena, eu acho que a gente ainda não conseguiu ter um sentimento de pátria assim, não é? Então, por exemplo, eu não conheço alguém que se mataria ou, enfim, iria para uma guerra a ponto de morrer, ou [enviar à guerra] um filho em nome do Brasil. Não sei se alguém... vocês têm fé? Vocês morreriam pelo Brasil? Vocês sairiam por aí no exército? É tudo tão escrachado que você fala: não, a minha vida aí não dá.

Ninho Moraes: Giulia, você está aprendendo [a tocar] baixo; e cantora, quando você vai virar?

Giulia Gam: Depois da [atriz] Cláudia Ohana [risos]. Não sei o que eu vou fazer com esse instrumento enorme, entendeu?

[...]: É o contrabaixo acústico?

Giulia Gam: Não, é elétrico, ele e o amplificador dele.

Zeca Camargo: Você não acha até que para você falar para a sua geração, talvez só a sua música? Ou você acha que a sua geração vai ao teatro ou te ver no cinema? Qual é o jeito de falar para a sua geração?

Giulia Gam: Eu acho que a música, pelo menos no Brasil que eu sinto mais forte, eu acho que a MTV é legal porque está abrindo espaço para vídeo, por exemplo, porque eu sei que este festival de um minuto aí [...] tem coisas maravilhosas. Eu sei que no Brasil, por exemplo, vídeo é uma coisa genial, eu já acompanhei vários grupos [...], [mas] não tem como veicular isso. Se tivesse um espaço para isso, isso explodiria. As coisas que o Marcelo Tas [(1959-) diretor, apresentador de TV, roteirista de TV e escritor] faz, enfim, mesmo o Programa Legal, que é dentro da Globo, tem ainda aquela estrutura, mas... Então eu acho que vídeo é uma coisa que explodiria diretamente na minha geração, no Brasil. E a música diretamente também, acho que são as duas grandes forças. O teatro ainda não tem... o teatro jamais vai ter um público assim, porque ele e feito mesmo de boca a boca, e não tem mais a força talvez dos anos 60, não sei, mas ele tem a sua força.

Jorge Escosteguy: Giulia, antes da próxima pergunta, [gostaria de] lembrar os telespectadores, ao Rodrigo Penha, de São Paulo, que a Giulia já falou sobre o último filme, A grande arte; a Eneida Mendes Coelho, de Belo Horizonte, que telefonou, sobre o trabalho com a Bete Coelho; e Gustavo Adad, aqui de São Paulo, sobre suas preferências sobre política. O Ronaldo Medeiros, aqui de São Paulo, pergunta sobre a sua postura em relação à aids e o que você acha do exemplo do jogador de basquete americano Magic Johnson [que, em 1991, anunciou ser portador do vírus da aids e se tornou ativista em prol de tratamentos alternativos a aidéticos].

Giulia Ga m: O que eu acho em relação à aids? Pô...

Jorge Escosteguy: A postura que você deve ter...

Ninho Moraes: Você faria campanha, por exemplo?

Giulia Gam: Faria, faria.

Aimar Labaki: Você toma cuidado?

Giulia Gam: Eu tomo cuidado, quer dizer, eu namoro, então é um pouco diferente, mas...

[...]: Gostei...

Giulia Gam: ...eu até brinquei uma época que o novo casamento é teste de aids: você faz, o outro faz, é a certidão, aí você fica com tanto pânico de sair dali, que você já está casado para sempre entendeu? [risos] Eu acho que o que é legal é que a coisa está sendo divulgada, enfim... Não pode ter o preconceito, para que possa ter a prevenção, entendeu? Acho que qualquer divulgação, qualquer postura, quer dizer, quanto mais natural ficar o fato de você virar e falar: poxa, então bota a camisinha, ou: por favor, eu boto a camisinha, ou já bota a camisinha de uma vez, quanto mais natural for isso, quanto menos constrangedor essa situação for, ainda mais quando envolve sexualidade e tal, melhor.

Eugênio Bucci: Você acha que houve um recuo nos costumes? O mundo encaretou? Você sentiu isso?

Giulia Gam: Eu não conheci o mundo antes, infelizmente. Eu não aproveitei esses bons momentos [risos].

Aimar Labaki: Nada?

Giulia Gam: Eu sou meio tardia, então eu não sei o que é a liberação sexual, entendeu?

Eugênio Bucci: Mais pelas peças de teatro, pelos filmes, pelas informações que chegam até você, pelas conversas, pelos saraus, você não sente uma...?

Giulia Gam: Sim, claro, tem uma mudança, você vê agora nitidamente que está se voltando ao casal, não é? O que é diferente, não sei se é melhor ou pior.

Eugênio Bucci: E como você trabalha essa idéia de casal? O que você acha da monogamia, da fidelidade conjugal?

Giulia Gam: Eu acho que, quando você está apaixonado, não tem jeito, você está junto e é aquilo e graças a Deus se o outro também estiver e você puder estar junto... Então, eu acho que essa situação é a ideal. Quando você está junto com alguém, você está junto e está, e pode ter uma cumplicidade com essa pessoa. As outras relações, aí depende da própria relação que você tem.

Aimar Labaki: Quer dizer que aquela lista imensa de gente é mentira?

Giulia Gam: É [ri].

Aimar Labaki: Sai [...] amigo e não sei o quê?

Giulia Gam: Eu ainda consigo contar em alguns dedos assim [risos], ou pelo menos lembrar. Cara, tem gente que nem lembra mais [quem foram seus parceiros sexuais] [risos].

Jorge Escosteguy: Só para completar esse assunto, há vários telespectadores perguntando... você disse que está namorando, então eles querem saber com quem você está namorando: Aparecida de Lima, de São Paulo; Guilherme, de São Paulo; José Roberto; Renê Cavalcante; Pedro Silva; Cecília Soares, todos de São Paulo; e o Marcos Pereira, que pergunta se você quer casar com ele.

Giulia Gam: Manda foto [risos]. Bom, esse negócio de namoro, eu já fiz muito alarde dos meus namoros, então eu vou frustrar vocês assim, eu prefiro guardar segredo.

Jorge Escosteguy: Ele é secreto?

Giulia Gam: Não é secreto, mas não é público.

Jorge Escosteguy: Uma última pergunta, nosso tempo está se esgotando.

Giulia Gam: Eu só queria falar uma coisa da televisão para o Fernando. Eu acho que tem essa brincadeira com a novela, que eu acho que eu fui muito séria e não brinquei com isso. O Jorge Fernando sempre falava para mim: relaxa e brinca, entendeu? Então, tem isso. A Aline [personagem interpretada por Giulia Gam em Que rei sou eu?] não era nada, ela era a namorada de Jean Pierre [interpretado por Edson Celulari]. Eu tinha, em 15 capítulos, três falas: “Oi, Jean ”, “tchau, Jean”, “oi, turma”, era isso, entendeu? [risos] A partir do momento em que você vai fazer, ele fala muito isso, que novela é uma gincana, ele dá o tiro, sai correndo e vamos ver como é que chega ao fim. Então, você vê que as novelas começam e viram completamente. Esse jogo é muito interessante. Acho que eu entrei meio séria, então eu assustava, o autor mudava tudo e eu falava: “Como? Não tem coerência com que estava ali?”. Quer dizer, se você for com [esse tipo de] expectativas...

Fernando Meirelles: É verdade, você poderia ter escrachado geral ali, não é?

Giulia Gam: Podia total, e eu ficava achando coerência, mas se ele namora outra, então eu era assim, como vou virar assado e virar depois? Eu acho que esse jogo é legal, mas aí você precisa ter um bom autor e um diretor legal, que dê para brincar com isso, porque muitos autores...

Ninho Moraes: Você devia fazer um programa de humor...

Fernando Meirelles: Total, isso ela precisa fazer, uma coisa escrachada...

[sobreposição de vozes e risos]

Jorge Escosteguy: Bom, com essa sua observação, nosso tempo está esgotado, nós agradecemos então sua presença esta noite aqui no Roda Viva.

Giulia Gam: Eu é que agradeço.

Jorge Escosteguy: E aos nossos companheiros jornalistas, que ajudaram na entrevista, e aos telespectadores, lembrando que as perguntas que não puderam ser feitas ao vivo serão entregues após o programa a Giulia Gam. O Roda Viva fica por aqui e volta na próxima segunda-feira às nove horas da noite. Uma boa noite a todos é até lá.

Fonte: http://bit.ly/q3AzcT