Giulia Gam de volta à cena

22/10/1999 20:05

Vítima de uma depressão pós-parto que mudou sua vida, a atriz retorna ao Brasil após seis meses em Nova York e se prepara para voltar ao trabalho

 

Rodrigo Cardoso

Escurecido pelas cortinas, o quarto de Giulia Gam não receberia a luz do sol de inverno, em Curitiba, se dependesse da sua vontade. Enrolada no cobertor e sem disposição para levantar, todas as manhãs a atriz franzia os olhos com a repentina claridade e uma voz firme: “Vamos levantar dessa cama e tomar banho! Eu tive isso e venci. E você também pode!” O sacolejo era da maquiadora Marlene Moura, responsável por sua caracterização em O Preço da Paz, título provisório do filme do cineasta Paulo Morelli, rodado entre julho e setembro no Paraná e em Santa Catarina. Protagonista do filme, Giulia enfrentava a dor de ter ido ao fundo do poço. No meio das gravações, vivia o auge de uma depressão pós-parto, doença que acomete duas entre dez mulheres que têm filhos e cuja recuperação pode demorar de oito a 13 meses. Giulia estava em Curitiba com o filho – então com um ano – , a mãe e uma babá, mas era Marlene quem a animava diariamente. Sem falhar um dia, checava com pulso forte se havia tomado os comprimidos do antidepressivo prescrito por médicos no Rio de Janeiro. “Nessas horas você não pode ser carinhosa o tempo todo”, lembra a maquiadora, que tempos antes enfrentara a doença ao se separar do marido.

A depressão, desencadeada após o nascimento de Theo, hoje com 2 anos e três meses, e agravada pela crise e o fim do casamento com o jornalista Pedro Bial, mudou a vida de Giulia. Aos 33 anos um dos maiores talentos de palco, tevê e cinema revelado na última década, a jovem de rosto doce e sorridente tornou-se melancólica e tinha crises de choro recorrentes. “Ela achava que não daria conta de cuidar do filho e queria ficar perto dele o tempo todo”, relata uma amiga da atriz. Para se recuperar, Giulia viajou em dezembro para os Estados Unidos com Theo, a mãe Ana Daysi Gam, e a babá. Agora recuperada, a atriz precisou de seis meses fora do País para vencer de vez a depressão. E anuncia sua volta num prazo de um mês para amigos e colegas de trabalho. “Estou louca para começar a trabalhar”, disse ela, animada, ao cineasta Paulo Morelli num telefonema na sexta-feira 9. “Então venha logo para tomarmos um chope e trabalharmos”, reforçou Morelli.

Foi o bastante para o cineasta perceber que Giulia não era mais nem sombra da mulher abatida e triste com quem conviveu durante três meses de filmagem de O Preço da Paz em Curitiba. Até engatilhou para que ela, logo que chegar ao Brasil, complete o filme com a leitura de uma carta que pertenceu a sua personagem, a baronesa Coca. “Na época, ela estava pessoalmente fragilizada. Relutava em sair do quarto do hotel, atrasou-se em algumas gravações, o que é absolutamente normal pelo problema que enfrentava”, conta Paulo Morelli. Quando acordava mais disposta, a equipe se mobilizava rapidamente para aguardá-la no set de filmagem. “Uma vez no set, ela esbanjava energia e atuava como ninguém. Eu não entendia de onde buscava forças. É uma senhora profissional”, acrescenta o cineasta.

Durante as filmagens no Sul, Giulia se submeteu a um tratamento ortomolecular, o que a deixou com mais disposição. Para estimulá-la, o cineasta conta que tentava estimular seu lado positivo. Elogiava-a sempre, enfatizando que as cenas estavam ótimas. “Mas ela não concordava. Giulia vivia um processo negativo e era muito cruel consigo mesma”, lembra Morelli. O comportamento não deixava dúvidas quanto aos sintomas da doença. “A pessoa com depressão usa óculos para as coisas ruins e fica cega e surda para o que tem de bom”, explica Doris Hupfeld, médica do Grupo de Doenças Afetivas, do Hospital das Clínicas (SP). Segundo a especialista, em virtude de variações hormonais, mulheres têm duas vezes mais chances do que o homem de desenvolver depressão. “A mulher fica melancólica, perde o prazer da vida e tem sentimentos de culpa. Há casos em que não tem condições de trabalhar”, explica Doris. Na mesma época das gravações do filme, Giulia recusou um convite do diretor Jorge Fernando para o papel de um dos protagonistas de Vila Madalena, novela das sete da Globo, antecessora da atual Uga Uga.

Mesmo para trabalhar no filme de Morelli, Giulia foi desaconselhada a aceitar o convite. A maquiadora Marlene Moura, seu anjo da guarda durante o duro período, fez uma visita à casa da Giulia antes de se iniciarem as gravações. “Saí de lá convencida de que ela estava triste”, conta ela. Marlene e Giulia já se conheciam da Rede Globo. “Ao chegar na minha casa, liguei para a Giulia e deixei um recado em sua secretária eletrônica. Queria aconselhá-la a não participar do filme, porque vi que estava abalada.” Giulia não retornou a ligação para a amiga e aceitou o convite. Mesmo afastada das novelas e dos seriados, foi a Globo que bancou tratamento para a atriz, segundo informações de uma amiga ligada a emissora carioca. “A empresa tem como prática disponibilizar esse tipo de auxílio aos funcionários”, diz.

PEDRO BIAL E O FILHO Além do tratamento, a vítima de depressão precisa de apoio familiar. “Nessas horas é imprescindível a compreensão do marido”, ressalva a médica Doris Hupfeld. Pedro Bial chegou a visitar Giulia em Curitiba duas vezes durante as filmagens de O Preço da Paz. O relacionamento já não ia bem, mas o casal só se separou mesmo pouco tempo antes de Giulia embarcar para Nova York. “Desde então, o Pedro nunca mais viu o filho”, conta uma amiga. “Os três se dão bem, mas ele e o Theo só se falam por telefone. O Pedro chora, fica mal por isso.” Segundo a mesma amiga, o jornalista não imaginava que a passagem de Giulia e do filho pelos Estados Unidos fosse durar tanto tempo. “Ele pensou que fossem passar apenas o reveillón e as férias por lá.” Bial, que atualmente namora Isabel Diegues, filha do cineasta Cacá Diegues, foi procurado por Gente, mas não retornou os recados deixados em sua secretária eletrônica.

Na temporada em Nova York, a atriz dedicou-se a cursos de teatro, à ioga e especialmente ao filho. Quando chegar ao Brasil, Giulia irá alugar o apartamento que pertence ao ator Paulo José, no Leblon, Rio de Janeiro. Por enquanto não está escalada para nenhum projeto em andamento da Globo – cujo contrato vence em 2002 – mas amigos da atriz, nascida em Perugia, na Itália, apostam que seu retorno será o mais triunfal de toda sua carreira. “Giulia Gam renasce a cada obra que faz”, conta o produtor de cinema Maurício Appel – que participou do filme em Curitiba e se prepara para filmar O Sentinela do Invisível, com roteiro de Walter Negrão. “Falei com a Giulia semana passada e ela quis saber se entrará na história”, diz Appel. “O período em Nova York foi bom para ela fazer uma reciclagem.”

Procurada por Gente, Giulia não se opôs à matéria mas não quis comentar a depressão. “Ainda não me sinto pronta para falar sobre o assunto”, disse ela, por meio da assistente Helena Moreira. “Depressão é um problema passado, superado, que não faz mais parte da minha realidade.” A atriz colocou-se à disposição para falar de projetos profissionais, mas até o fechamento desta edição não havia respondido às perguntas enviadas por fax.

Amigo de Giulia há vinte anos, Marcelo Tas, apresentador do programa Vitrine da TV Cultura compreende a opção de afastamento da atriz e seu longo período fora. “As pessoas criam uma imagem de perfeição para os artistas. Acham que eles são seres do Olimpo. Mas a Giulia precisava se afastar um pouco”, diz. “Ela foi fundo na crise para entendê-la e enfrentá-la. Não acredito estar relacionada apenas a uma depressão pós-parto. É que a Giulia não convive com a falsidade. Tem obsessão pelo verdadeiro.”

Marcelo fala com segurança sobre a amiga por ser um profundo conhecedor da personalidade de Giulia. Foi ele o maior responsável pela transformação da menina em atriz, quando ela tinha 13 anos. “Eu participava da montagem da peça Romeu e Julieta, feita pelo Antunes (Filho, diretor de teatro). Um dia o Antunes passou uma lição de casa para os atores: ‘Achem uma Julieta’. Vi a Giulia tocando flauta com uma banda, no teatro da USP, e sabia que tinha achado a Julieta.”

Tas estava certo. Em 1984, aos 17 anos, Giulia ganhava o prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte, como atriz revelação de teatro adulto, pela sua atuação na obra de Shakespeare. Poucos anos depois, ficaria conhecida como a “Rainha dos Saraus”, por reunir artistas em sua casa para recitar poesias e promover discussões eruditas. Giulia Gam provou não ter perdido a majestade diante das câmeras, mesmo quando uma injeção de ânimo se fez necessária. Disposta como agora parece estar, em breve estará de volta à cena.

Colaborou Alessandra Nalio e Viviane Rosalem

Fonte: http://www.terra.com.br/istoegente/46/reportagem/rep_giulia.htm