Giulia Gam comemora 25 anos de televisão

31/05/2012 23:20

Giulia Gam sempre prezou por ter uma boa relação com o tempo. Sem grandes vaidades e arrependimentos de percurso, aos 45 anos, sendo 25 dedicados à televisão, ela diz se sentir mais bonita e segura na pele da Laura, de “Amor Eterno Amor”, do que quando deu vida a jovem Jocasta, na primeira fase de “Mandala”, de 1987. “Agradeço à maturidade por conseguir enxergar as coisas de forma mais simples. Na época em que estreei na tevê, estava tão perdida em autocríticas que nem aproveitei tanto. Hoje sinto prazer em trabalhar.”

Boa parte dessa satisfação da atriz em estar no ar vem da composição e dos rumos dados pela autora Elizabeth Jhin à Laura. “Minha personagem é moderna, cheia de humor, bonita. Ganhou força com a revelação do antigo caso que teve com o Dimas. Mas não perdeu a leveza”, afirma Giulia, referindo-se ao tórrido romance que liga Laura ao personagem de Luis Melo.

Natural da província de Perúgia, na Itália, Giulia veio para o Brasil com apenas 8 meses de idade. Incentivada pelos pais, logo demonstrou interesse pelas mais diversas formas de arte. Até que a paixão pela mímica a levou a estudar Teatro. A estreia nos palcos foi aos 15 anos, no clássico shakesperiano

Entrevista

P – Este ano você completa 25 anos de televisão. O que a leva a encarar novos trabalhos?

R – Minha relação com a tevê começou de forma tímida e meio que sem muita empolgação da minha parte. Mas tive a sorte de ter bons convites. Não sou daquele tipo de atriz que batalhou para aparecer, que fez inúmeros testes para um papel e comemorou cada uma dessas etapas. Ser convidada para um personagem legal na televisão é ainda o principal fator para eu aceitar ou não. E, com tantos anos nos bastidores, os diretores e autores já sabem mais ou menos os tipos que me instigam e me dão prazer em interpretar.

P – Sua origem é o teatro alternativo da cena paulistana. Essa formação fez com que você sustentasse esse preconceito pela tevê?

R – Comecei no teatro com o (diretor) Antunes Filho. Eu era muito nova, sem um pensamento crítico totalmente desenvolvido. Estava naquele grupo de teatro totalmente visceral e experimental. A gente encarava o palco como uma religião. Tínhamos em mente o movimento teatral dos anos 60. Onde os espetáculos eram de grande importância na sociedade. Uma poderosa arma de influência, transformação e contestação política. Encarava a carreira de atriz de teatro como um sacerdócio (risos). Minha primeira experiência na tevê foi em uma novela das oito. Me sentia culpada, pensado que estava me vendendo (risos).

P – Mesmo com sentimento de culpa você topou fazer “Mandala” e logo depois a minissérie “O Primo Basílio”…

R – Contraditório, né? Mas de alguma forma, por ser um texto do (autor português) Eça de Queiroz, dirigida pelo Daniel Filho, a chance de fazer “O Primo Basílio” me deu a sensação de que a televisão poderia ser algo mais contundente, profundo, denso. E era mesmo. A minissérie me deu grande prestígio. Quando acabou, fui viajar, fazer e estudar teatro no exterior. Quando voltei dessa temporada, o Daniel me ligou falando de uma personagem em “Que Rei Sou Eu?”. Eu disse que iria pensar, mas ele retrucou: “É o grande projeto da Globo! Não é possível que você esteja na dúvida!”. Pouco tempo depois eu topei.

P – Atualmente, “Que Rei Sou Eu?” está sendo reprisada pelo canal Viva. Chegou a assistir a algum capítulo?

R – Ainda não consegui ver muita coisa. Vi algumas cenas, fotos no jornal, conversei com jornalistas. Do pouco que vi, fiquei impressionada de me ver tão jovem. Tinha 22 anos, carregava um olhar de tanta coisa pela frente. Não tinha dimensão que estava participando de algo tão importante. Vendo hoje, independentemente se a novela ficou datada ou não, a minha impressão é que aquela mistura de referências aos clássicos da literatura e a situação política e social do país deu muito certo.

P – A partir desse trabalho você fez as pazes com a televisão?

R – Não (risos)! Fico meio triste com isso, sabia? Meus valores eram muito rígidos. Por isso, acabei não desfrutando da diversão de trabalhar com o Jorge Fernando e com os outros nomes maravilhosos que estavam no elenco! Era a primeira novela do Antônio Abujamra, da Vera Holtz, e eu me culpando por achar que estava me rendendo ao sistema. Só consegui fazer televisão sem culpa quando fiz a Heloísa, de “Mulheres Apaixonadas” (2002)*.

P – Quinze anos separam a sua estreia de “Mulheres Apaixonadas”. No meio disso, você ainda protagonizou “Fera Ferida” e a minissérie “Dona Flor e Seus Dois Maridos”. Não acha que é muito tempo fazendo algo contrário aos seus princípios?

R – Confesso que ser protagonista foi bem complicado. Mas são trabalhos que me enchem de orgulho hoje em dia. Ao mesmo tempo em que sentia que estava traindo minha formação teatral, vi que trabalhar na televisão me fazia bem. Fugi das novelas, fiz coisas especiais com o Guel Arraes, como “A Comédia da Vida Privada”, e continuei de forma intensa no teatro durante os anos 90. O tempo foi passando, a maturidade chegando, fui mãe e surgiu a Heloísa. A personagem me fez ver que atuar não é apenas interpretar bem um papel.

P – Por quê?

R – Pela primeira vez, eu senti que era possível mexer com a sociedade. Era o começo dos estudos sobre o ciúme como doença, a depressão, os remédios. Existia um preconceito enorme. Isso foi muito forte e uma revelação para mim. E até para o próprio (autor) Manoel Carlos. O assunto repercutiu não só no Brasil, mas em todos os países onde a novela foi exibida. O sofrimento dessas pessoas foi divulgado. Acabei fazendo uma terapia popular e a personagem marca uma segunda etapa da minha carreira televisiva.

P – “Amor Eterno Amor” é sua quinta novela depois de “Mulheres Apaixonadas”. Qual foi o maior atrativo para interpretar a Laura?

R – Minha última novela tinha sido “Ti-Ti-Ti”, um trabalho muito pesado. A trama era superdivertida e meu núcleo era só tristeza. O fato da Laura ser uma mulher moderna, inteligente e independente chamou a minha atenção. Agora minha personagem é uma mãe legal, loura platinada, usa maquiagem, tem figurinos lindos. É bom variar. Estou feliz em voltar a fazer uma mulher resolvida, que se cuida. Tem seus dramas como todo mundo, mas eles não são o principal. E também tem uma vida amorosa conturbada e alguns pretendentes. A gente escolhe essa profissão para beijar na boca também. Mesmo no papel de mãe. Mãe também beija, né? (risos).

P – Sua personagem é uma descolada editora de revista. Chegou a visitar alguma redação em busca de inspiração?

R – Acho importante ambientar a personagem. Logo que fui convidada para o papel, visitei a redação de uma revista de celebridades semanal da editora Globo. Mas também senti a necessidade de conhecer a redação de revistas com periodicidade diferentes. O clima muda dependendo disso. Me interessei pelo assunto. Fui atrás de publicações investigativas, educacionais, decoração e cultura. Além disso, sempre prestei muita atenção nos jornalistas que conheço, que me entrevistam… Essa referência foi importante.

P – Depois de uma participação em “Eterna Magia”, esta é sua segunda experiência com o texto de tintas espirituais da Elizabeth Jhin. É uma temática que a interessa?

R – O texto da Elizabeth tem um tom mágico, de fábula, que fica bem no horário das seis. Acho legal ela prezar por tramas espiritualizadas, mas sem defender a superioridade de uma doutrina. Confesso que tinha certo preconceito com o espiritismo.

P – Que tipo de preconceito?

R – Como em todas as religiões, o espiritismo também tem um lado pesado. Ligava a doutrina de forma severa aos espíritos obsessores. Isso me assustava muito na infância. Pensava que quando eu morresse, gostaria de ir para outra dimensão. Não gosto da ideia de ficar presa a coisas materiais, quero mesmo é virar uma estrela (risos). Parei de pensar essa bobagem sobre o espiritismo depois de fazer o filme “Chico Xavier”, onde estudei e tive outra compreensão sobre o tema.

*A novela Mulheres Apaixonadas passou em 2003.

Fonte: http://bit.ly/K10Gdm