Giulia Gam constrói sucessos no cinema e na TV

27/05/1998 23:20

Após viver d. Flor na Globo, está em três filmes, entre eles ‘Policarpo Quaresma’, que estréia na sexta-feira

Em contraste com o recato vivido na vida pessoal, em conseqüência da maternidade recente (o filho Theo nasceu no dia 14 de março), profissionalmente Giulia Gam está em plena evidência.

E não sem razão. Além da bem-sucedida interpretação de um papel que até agora parecia ser exclusivo de Sonia Braga em Dona Flor e Seus Dois Maridos (minissérie que acaba de ser exibida pela Rede Globo), a atriz participa de três filmes da nova safra do cinema brasileiro: Policarpo Quaresma – Herói do Brasil, que estréia na sexta-feira, Tiradentes e Primeiras Estórias*. Isso sem falar em Miramar, de Júlio Bressane, do ano passado.

No teatro desde os 15 anos (ela agora tem 31), quando fez um teste, e passou, para ser a Julieta de Shakespeare, na companhia de Antunes Filho, Giulia vive com alegria sua atual “explosão” cinematográfica. “O cinema é muito bacana, é um equilíbrio entre o teatro, que é algo mais religioso, um momento existencial profundo, de entrega total, e a televisão, que é uma coisa imediata, atinge o País inteiro, com uma resposta nacional”, ressalta ela.

“O cinema junta as duas coisas: o lado visceral, passional do teatro e uma relação tecnológica muito avançada, que existe também na televisão”, observa a atriz.

Giulia fez seu primeiro papel importante no cinema em 1989, com Walter Salles Jr., em A Grande Arte. Antes, trabalhou com João Batista de Andrade em No País dos Tenentes, com Francisco Ramalho Jr. em Besame Mucho, alguns curtas-metragens, mas nenhum grande papel. “Como sou de São Paulo (ela se mudou recentemente para o Rio) e, embora São Paulo tenha um cinema forte, é no Rio que o cinema tem mais tradição.”

“Eu era pouco conhecida, os diretores não me chamavam, mas depois de A Grande Arte pensei que iam começar os convites, mas veio o Plano Collor e aí acabou tudo”, lembra. Ela filmou muito com Júlio Bressane, mesmo durante o Plano Collor – vídeos, cinema. Depois fizeram Miramar, que foi o maior sucesso dele. “Todo filme que ele faz, sempre me chama; o Júlio acabou sendo um respaldo para mim no Rio.”

“Uma coisa importante no cinema é quando se diz que um povo sem cinema não tem história, eu achava isso meio bobagem, mas aí vi que quando você filma está registrando uma época, é um documento mesmo.”

Por mais ficção que seja o filme, é o registro de um país. “Porque o teatro está ali, vivo, as pessoas têm de ver no momento que ele acontece; na televisão, você tem um registro de imagem, mas é muito imediato; mas, se você quiser estudar um país, os filmes são fundamentais.”

Guimarães Rosa – Enquanto dá de mamar ao pequeno Theo (que sucessivamente dorme e acorda no aconchego do peito da mãe), absolutamente tomada e feliz pela maternidade, Giulia fala com entusiasmo de seu último trabalho, que está quase pronto:  o filme Primeiras Estórias, do marido Pedro Bial, adaptação de cinco histórias do livro homônimo de Guimarães Rosa.

Foi durante as filmagens que Giulia Gam descobriu estar grávida. “Eu desconfiava, mas ainda estava esperando o resultado do teste e tinha aquelas cenas em que eu danço, fico pulando, e eu não sabia se podia fazer aquilo ou não; foi muito marcante para mim estar trabalhando com o meu marido, grávida.

Choque – “Sempre havia uma polaridade entre o trabalho e a nossa vida em comum, às vezes até choque.” Mas, desta vez, foi uma integração absoluta. “Vi que podíamos trabalhar juntos, não entramos em atrito, deu muito certo.”

Giulia Gam participou de todas as etapas de Primeiras Estórias. Desde a fase do sonho, quando começaram as discussões sobre a possibilidade de fazer o filme, depois os conceitos de como seria filmar Guimarães Rosa, a interpretação, as cores, até a contratação do elenco e, finalmente, a sua participação como atriz.

“Antes, eu sempre era chamada para fazer os filmes quando tudo já estava conceituado, agora foi diferente, participei de tudo desde o começo.” A princípio, ela deveria fazer também a direção de atores, mas o convite para ser d. Flor alterou seus planos.

“Eu estava no meio do sertão com o Pedro, feliz da vida, fazendo o documentário sobre o Guimarães Rosa (que precedeu a filmagem de Primeiras Estórias), quando me chamaram para fazer Dona Flor”, informa Giulia.

Era um desafio muito grande.

“O filme com a Sonia Braga é excelente, ela tem um carisma incrível, é muito sensual, fiquei com muito medo”, admite ela agora. “Quando me disseram que eu tinha de tomar sol, fiquei com medo de estarem querendo que eu me aproximasse e ficasse parecida com a Sonia, mas depois vi que era uma maneira de me tornar mais popular”, prossegue, falando com tranqüilidade sobre os seus medos.

Sabiamente, porém, orientada pelo diretor Mauro Mendonça Filho, Giulia seguiu por outro caminho, totalmente diferente de Sonia Braga. “Era um trabalho sutil, difícil, não só de interpretação”, afirma a atriz.

“Eu tinha de ter uma sensualidade discreta, não ostensiva, descobrir a minha sensualidade e lidar com esse mito que é a Sonia Braga.” Só ficou mais tranqüila quando leu o livro de Jorge Amado e viu que a d. Flor é um arquétipo de mulher apaixonada, que faz qualquer coisa pelo homem que ama. Ela encarna duas figuras femininas: a da mulher, que cuida da casa e cozinha, e a da amante.

“Quando me dei conta de que era uma história baiana,, local, e vi que era uma personagem clássica da nossa literatura, concluí que ela poderia ser recontada várias vezes e de diversas maneiras; acho que foi um dos maiores desafios que eu tive  em toda a minha vida”, sintetiza Giulia.

Desafio que deu certo. A d. Flor de Giulia foi absolutamente original, uma outra imagem da personagem de Jorge Amado, porém igualmente forte. Em Policarpo Quaresma – Herói do Brasil, filme de Paulo Thiago baseado no livro de Lima Barreto, rodado no ano passado, Giulia Gam é Olga, a afilhada de Policarpo (Paulo José), uma jovem avançada para a época.

“A Olga é a personagem mais bonita do roteiro, ela tem uma história de amor platônico com o padrinho.” Embora ela tenha sido criada para casar, ela tem uma insatisfação dentro dela, com a sociedade da época, e encontra uma correspondência no padrinho. ‘Os outros achavam que ele era louco; para ela, ele era um visionário.”

Consciência – Sempre fazendo reflexões sobre o conteúdo de cada trabalho, Giulia observa: “Policarpo mostra como é duro um país libertar-se de sua história, da corrupção, da falta de consciência de cidadania, essa coisa imediatista do Brasil, apesar das tentativas de mudança de mentalidade.”

Já em Tiradentes, de Oswaldo Caldeira, sobre a Inconfidência Mineira, que deverá ser lançado no segundo semestre, a atriz tem uma participação menor, como Marília de Dirceu. Rodado em Ouro Preto (a antiga Vila Rica), Giulia destaca: “Foi muito bacana fazer a Marília no meio daquela revolução.” E acrescenta: “Isso que é bom em cinema, você está numa locação, tem acesso a toda uma informação, estuda a personagem, a época.”

Em seguida, porém, ela assinala, bem-humorada, com um sorriso e o espírito crítico aceso: “Mas ator também é muito maluco, depois faz outro trabalho e esquece tudo.”

Cria de Antunes Filho, Giulia se remete sempre aos diretores com quem trabalhou, seja no teatro, cinema ou na televisão. Para ela, existem atores que têm uma personalidade forte, que trazem o projeto para si, o Jack Nicholson, por exemplo, e o Pedro Cardoso, às vezes.

“Eu sou mais página em branco, para mim é muito importante saber qual é a proposta do diretor.” Por exemplo, em Dona Flor, o diretor tinha uma proposta de recato, de timidez para a personagem. “Eu não sou nada daquilo, essa personagem não tem nada a ver comigo, tinha cenas que eu faria totalmente diferente, eu entrava diferente e ele dizia ‘vamos por outro caminho, Giulia’; sou uma atriz que se amolda ao projeto”, define.

Giulia associa essa atitude ao trabalho desenvolvido durante anos com Antunes Filho. “Ele exigia muito da gente, se encontro um diretor em quem confio, como ele, tenho coragem de jogar-me muito mais do que quando estou sozinha; eu, comigo, faço mais ou menos o que sei, mas, com um diretor em quem confio, posso dar saltos no escuro.”

Assim foi também com Gerald Thomas no teatro ou com Daniel Filho e Guel Arraes na TV. “Gostoso mesmo é trabalhar com gente talentosa, sensível e inteligente; qualquer coisa que você faça fica boa”, conclui, precisa, com o sorriso doce e o pensamento firme.

*Nome correto do filme: Outras Estórias

Fonte: O Estado de São Paulo

Arquivo: Nuno Bragança