Giulia Gam estreia duas peças após uma década fora dos palcos

08/11/2015 21:35

Cansada do Rio de Janeiro, a atriz retoma as raízes paulistanas e interpreta duas montagens de Shakespeare

Julieta, a virgem apaixonada por Romeu, e Lady Macbeth, vilã manipuladora, capaz de tudo para alçar o marido ao poder, são duas criações icônicas do dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616). Três décadas separam o encontro da atriz Giulia Gam com essas personagens. Em abril de 1984, ela debutou na profissão, sob o comando do diretor Antunes Filho no Teatro Anchieta, palco nobre do Sesc Consolação, como a jovem romântica que se mata em nome do amor proibido.

Tinha 17 anos, havia se preparado por catorze meses e viu-se tomada por uma ansiedade que, até o último minuto, poderia pôr tudo a perder. O sucesso lhe rendeu dois anos de apresentações, inclusive no exterior, e o convite para estrear no vídeo na pele de outro tipo emblemático, a jovem Jocasta da novela Mandala (1987). “Não tinha a menor noção da repercussão daquilo tudo”, lembra. “Só soube das paixões que despertava muito tempo depois, e acho uma lástima não ter aproveitado melhor o encanto dos rapazes pela Julieta.”

Consagrada como uma das intérpretes mais representativas de sua geração, Giulia, aos 48 anos, enfrentou dilemas similares diante da estreia do projeto Repertório Shakespeare, que reúne a tragédia  Macbeth e a comédia Medida por Medida — nesta, Giulia faz o pequeno papel de uma prostituta — em outro Sesc, o da Vila Mariana. O frio na barriga virou dor de ouvido e o texto de Macbeth, tão ensaiado ao lado do colega Thiago Lacerda, seu marido na ficção, pareceu difícil como se estivesse em outra língua. “Se eu não cair no palco, sabotada pela cauda do vestido, vai dar tudo certo na temporada”, brinca ela, extraindo um pouco de charme da insegurança.

Sem perceber, a artista se ausentou dos tablados por uma década e emendou sete novelas na Rede Globo. “Terminei Boogie Oogie em março exausta e devo ficar 2016 todo fora do ar”, planeja. Nos intervalos de tantas gravações, curtiu a passagem da infância para a adolescência do filho Theo, hoje com 17 anos, do casamento com o jornalista Pedro Bial. “É no teatro que exerço o meu dom.

Na televisão e no cinema, por mais que goste, sou uma prestadora de serviços”, diz. Giulia, porém, teme ter enferrujado longe da cena. “Eu me vejo em um papel tão importante quanto o da Julieta e não pensava que tal grandiosidade se repetiria na minha carreira”, comemora. Brasileiro radicado na Inglaterra e nos Estados Unidos, o diretor Ron Daniels, rigoroso até o terceiro sinal, deposita confiança em sua protagonista. “Lady Macbeth é uma mulher que requer uma enorme coragem da atriz, porque ela é uma transgressora, assim como Giulia, que é um animal de teatro”, elogia ele.

A artista nasceu em Perúgia, na Itália, na reta final de uma viagem de estudos dos seus pais, um engenheiro obcecado por pintura e uma psicóloga adepta do psicodrama. Só chegou a São Paulo, onde foi criada e morou até 1998, aos 8 meses. Passou a infância e a adolescência em uma casa repleta de livros e sem um aparelho de televisão. Estudou flauta, lutou esgrima e via peças nas férias que passava fora do país. “Essa base cultural tão sólida em uma menina linda, de cabelos longos e rosto redondo encantou o Antunes”, afirma Marco Antônio Pâmio, o Romeu da montagem, que reencontra a colega pela primeira vez agora em Repertório Shakespeare.

O próprio teste no Centro de Pesquisa Teatral (CPT), de Antunes Filho, quase fracassou por causa do excesso de espontaneidade. Levada por um amigo, o apresentador Marcelo Tas, a candidata foi sabatinada ao lado de um ator que não conhecia. “De repente, recebo um chamado do Antunes, que estava doido porque Giulia não parava de rir do modo como o rapaz falava o texto”, conta Tas. “Tive de acalmar a moça, que, recomposta, fez uma cena arrebatadora.”

Se Giulia volta ao lar no reencontro com o teatro, a hora também é de recuperar as raízes paulistanas, deixadas de lado nos últimos quinze anos. Ficará na cidade pelo menos até fevereiro, no apartamento que mantém na Praça Vilaboim, em Higienópolis. Quer receber gente em casa, sair para jantar com o elenco depois dos espetáculos, frequentar o cinema, além de descobrir jovens atores e esboçar projetos em parceria.

“Vivo muito encastelada no Rio de Janeiro pelo trabalho na Globo e também assustada com a violência de lá, tudo acontece na porta da casa da gente”, diz. O filho, Theo, segundo ela, tem talento para a filosofia, mas acaba de prestar vestibular para administração, adora surfe e, logo, não morre de amores por São Paulo. “O bom é que, como administrador, ele pode fazer qualquer coisa e até, quem sabe, gerenciar a carreira da mãe”, brinca. 

Fonte: http://goo.gl/gQC7iR