Giulia Gam fala sobre o medo de ser esquecida em entrevista

14/06/2012 01:49

"Acho que para todo ator é muito dolorido acabar um trabalho", disse a atriz para a QUEM. Veja mais trechos da entrevista na Revista QUEM

Aos 45 anos, Giulia Gam admite que pensa em se casar novamente, após ter enfrentado momentos difíceis, como a morte da mãe e a luta pela guarda do filho, Theo, de 14 anos, com o ex-marido e jornalista Pedro Bial. Em cartaz em São Paulo e gravando a novela "Amor Eterno Amor" no Rio, a atriz faz um balanço dos 30 anos de carreira e conta como quase desistiu da vida artística. "Acho que, sobre a carreira artística, principalmente no Brasil, você sempre tem medo de não ser lembrada."

QUEM: Como tem sido fazer o espetáculo infantil Pedro e o Lobo?
GIULIA GAM: Venho a São Paulo (Giulia também tem um apartamento no Rio de Janeiro) todo sábado de manhã para me apresentar no Tuca, aos sábados e domingos, às 16h. A gente conseguiu uma temporada de dois meses e meio e a receptividade foi tão grande que a gente está prolongando por mais quatro semanas. Queríamos rodar o Brasil. O que é bacana é que é um espetáculo para as crianças se interessarem por música, pelas famílias dos instrumentos. Cada personagem da história é representado assim. A gente não queria tratar como uma peça infantil. O espectador vê a orquestra, tem 25 músicos. Em um mundo tão tecnológico, estar com uma orquestra, uma narradora, ouvir alguém contando história, é tão maravilhoso. Tem uns bonecos manipulados por 15 atores vestidos de preto. Essa parte sensorial de entrar e ser estimulado alimenta de tal forma que as pessoas voltam. Recuperei a minha paixão pela música porque estudei flauta transversal aos 15 anos. Convivi muito com meu primo, o musicista Nilton Carneiro, e pensei em fazer música, depois estudei canto e nunca perdi o contato com a música.

QUEM: Como é ser mãe de um adolescente (Theo, de 14 anos, do casamento com Pedro Bial)?
GG: Não tenho regras muito especificas de educação, tenho de valores, mas não uma rigidez de comportamento. Sou aquela engraçada, mas tem aquela hora que não posso ser só a tia engraçada e tenho que ser a mãe também, ser firme. Essas horas são as mais difíceis. Eu acompanho bastante a escola. Agora que ele é adolescente, está na idade de criar o espaço dele. No meu caso, é um ficar de olho sem invadir. É como jogar videogame: quando você está chegando para completar o jogo, outra fase que começa. Então, não tem descanso. Ele gosta de tocar violão, está procurando as coisas dele. A natureza é terrível: você vai abrindo mão do filho, vai abrindo, vai sendo violentada, aí abre mão e remodela sua própria vida. Já tem uns dois anos que começou a acontecer isso e, no primeiro momento, assusta, é tudo muito rápido.

QUEM: Como foi sua adolescência?
GG: A minha adolescência foi muito atípica porque com 15 pra 16 anos eu já comecei a trabalhar muito e tive uma experiência profissional que talvez só teria aos 40 anos. Por um lado, amadureci muito em termos de responsabilidade. Quando ia começar a sair, tocar os violões, aproveitar o primeiro namorado, o primeiro beijo, eu já estava fazendo turnês pelo mundo.

QUEM: Já pensou em desistir da carreira artística?
GG: No começo, aos 19 anos, quando voltei das turnês do Antunes (Filho, diretor), me questionei se era aquilo mesmo que queria fazer ou se dei sorte de ele ter precisado de uma atriz jovem pra fazer a Julieta na peça dele. Gostava muito de medicina e fiquei um mês frequentando um hospital. Eu adoro, seria uma profissão que exerceria com muito prazer. Acho que, sobre a carreira artística, principalmente no Brasil, você sempre tem medo de não ser lembrada. Meu sonho era ter uma constância de um grupo. Acho que para todo ator é muito dolorido acabar um trabalho. Você está acabando uma família. Cada final de trabalho é uma pequena morte. No Brasil, a gente não tem estabilidade. Quando a gente vai ficando mais velha, são outros papéis que te oferecem e, na verdade, é a hora de ter mais condições de produzir suas próprias coisas. Eu tinha que ser menos medrosa nesse sentido. Sou uma boa intérprete, não sei se tenho essa coragem de ser criadora do processo, de ter a ideia. Tenho várias ideias ótimas, mas deixo irem embora geralmente. Nessa fase da vida é que os atores começam a escrever. Imagine: tenho 30 anos de carreira, me maquiando, fazendo personagem, incorporando eles todos. Às vezes, dá mais vontade de trabalhar com a as ideias. Talvez, se tivesse em outro país, estaria em uma companhia estável, pensando só em fazer meus papéis. Aqui, vejo que os atores correm atrás do texto, da ideia e da montagem para fazer acontecer seus trabalhos. Quando você é mais nova, você recebe mais convites porque as pessoas precisam dos atores novos nas peças.

QUEM: Como foi interpretar Dona Flor?
GG: Ah, eu tinha que achar uma sensualidade apesar de ela ser doce. Foi um trabalho muito bacana, estava na virada dos 30 anos e acho que foi um jeito de descobrir, de brincar comigo mesma. Fiz bastante ginástica para ficar com o corpo afinado, mas sem músculos. E eu sinto muita falta de quando estava bonitinha. Eu não me achava, era muito crítica, fiquei bastante insegura. O Mauro Mendonça foi muito sensível e percebeu meu nervosismo. Pela primeira vez não gostava do figurino, reclamava. Vejo que você tem que saber lidar com ator porque ali, por exemplo, era muito insegurança pura. Daí, ele deixou no camarim um vasinho com uma flor e escreveu: "Você é minha flor e estou feliz de ter escolhido você". E, de lá, desabrochei. E foi um papel sensacional, dois maridos, dois arquétipos: um sedutor, que a introduz ao mundo da sexualidade, do sexo, mas também um outro protetor, meio paternal. As duas coisas que a gente oscila procurando nos homens. Ela era sortuda. A Flor é uma pequena burguesa, não tinha consciência da sensualidade. É nisso que me identifico. Talvez seja uma timidez, talvez agora consiga assumir um pouco se alguém falar: "Você está bonita, sexy". Talvez eu diga: "Obrigada". Uma amiga, diretora universitária do curso de filosofia em Curitiba, me disse: "Ah, Giulia, bota um decote, passa um batom vermelho". Era um cara que eu estava saindo, mas estava difícil dar certo. No que eu botei o vestido preto com decote e passei um batom, ele ficou louco. Eu pensei: "Porque a gente foi educada desse jeito? É tão mais simples". Na verdade, fiquei com raiva. Não é possível que só um decote e um batom faça esse estrago. Mas faz.

QUEM: Você namora o americano Stephen Bocskay à distância. Gosta assim?
GG: Namorei muitos estrangeiros, sempre quis morar fora do Brasil. Desde muito nova, sempre que acabava um trabalho. viajava. Era uma preocupação que vinha do Antunes (Filho, diretor) de não deixar o ego não subir à cabeça, virar vaidade, era quase que uma punição... E era até um pouco demais, mas tudo bem, valeu por algumas coisas. Mas me falta até um pouco de vaidade agora. Bom, depois que fiz novela, era impossível viajar pelo Brasil. Meu pai tinha um contato na França e eu viajava por ali. Meus relacionamentos acabaram sendo com pessoas estrangeiras, adorava. Depois namorei dois anos e meio um alemão de Berlim, depois namorei um francês. Eu acabava ficando apaixonada e queria morar lá. Mas sempre acabava e eu voltava. O próprio Pedro (Bial) estava morando na Inglaterra porque ia ser transferido para a França. Aí, fui parar no Rio de Janeiro, que não é minha cidade e tive um filho absolutamente carioca, que surfa.

QUEM: Gosta de viver no Rio?
GG: Tive que morar no Rio por questões do meu filho. Foi muito estranho num primeiro momento porque não tinha nenhum vínculo. Estava com o Pedro, tinha um filho, mas não tinha família, não tinha vínculo pessoal e afetivo com a cidade. Achava linda, mas eu temia intelectualmente o fato de tudo girar em torno da minha área na TV. Há pouco tempo, mudei de casa, fui morar no Leblon e, pela janela, vem o cheiro do mar. Agora, estou me sentindo uma turista no Rio e estou adorando isso. Agora acho que o Rio já faz mais parte de mim.

QUEM: Você aparenta ser uma pessoa mais independente...
GG: Sou independente porque fui independente, não foi uma escolha. Para a geração da minha mãe era importante isso. Meu pai era europeu e admirou minha mãe por conta disso. O padrão que tenho é de uma vida francesa, europeia. Então, sempre foi valorizado o trabalho na minha vida. Até briguei com a minha mãe certa vez, disse: "Poxa, você podia ter dado outros conselhos". Ela respondeu: "Ah, filho e marido todo mundo tem. Se você tem o dom para alguma coisa, tem que desenvolver esse dom". Eu até falei: "Que duro, né?". Então, não sei como eu seria de outra maneira.

QUEM: Conseguiria dividir sua casa com alguém agora?
GG: Para falar a verdade, não casei. Apesar de ter morado junto, vivi um periodo de apaixonamento. Então, essa coisa do filho, construir essa rotina junto de estabilidade, não posso dizer que esgotei a vivência disso. Ao mesmo tempo, não sei como seria dividir uma casa com alguém. O que eu sinto, de dois, três anos para cá, é essa vontade de voltar a me apaixonar. Quando você se apaixona de novo e se envolve, as cosias acontecem e, quando você vê, seus conceitos mudam, te vem uma vontade de ter um filho de repente. Agora tudo pode acontecer novamente. Achei que não ia viver essa sensação de novo. Poxa, passei pelo 40, 41, 42 anos, agora tenho a sensação que tudo pode acontecer, né? Tenho amigas que tiveram filhos de maneira independente, que adotaram. Que acharam um parceiro que já teve filho, ja viveu dez anos de casamento, então não é tão fundamental estabelecer vínculo nesse sentido e podem morar em casas separadas. De repente cada um tem seu filho, seu enteado, os meus, os seus, os nossos.

QUEM: Acha que seu filho aceitaria?
GG: Acho que ele encararia numa boa.

QUEM: O que pensa sobre os atores que surgem em programas de TV ou reality shows?
GG: Acho que não dura. Você entra porque tem espaço, mas não é garantido. A carreira artística é muito dura, instável, tem que ter vocação. Artista nem gostaria de ser artista, só é artista porque não tem jeito, está dentro dele. Não é uma convivência pacífica consigo. A gente trabalha a ilusão e tem que mostrar que é fácil fazer uma cena. Se a gente mostrar que é difícil, perde a graça. O problema é que muita gente acha que consegue e, quando entra na TV, vê que não é nada daquilo. Tem gente que pensa: "Nossa, como ela chora fácil!" Não, não chora. Aquilo é um treinamento de anos. Às vezes, a gente sai de cena carregando aquela energia e demora para sair de você isso. Sem saber disso, todo mundo quer ser ator.

QUEM: Tem alguma crença, alguma religião?
GG: Acho que todas as religiões são um tipo de linguagem para se atingir o sagrado. Você pode usar o nome Deus, mas é só um nome. Tem um pensamento do José Saramago que diz algo assim: "Somos o que está dentro da gente e não sabemos dizer o que é". Acredito no sagrado. As palavras são poucas para explicar, não é algo que percebemos racionalmente. A cabeça é um meio muito eficaz, mas não é o único, é uma das possibilidades de sentir a vida. Na minha vida, já experimentei o que é esse tipo de silêncio ou de amor ou de paz, de perpetuação, algo muito suave e muito forte. Talvez a gente fizesse parte de um todo e não tenha mais a consciência disso.

QUEM: Como mantém a boa forma?
GG: Já fui "vegectolactotreco" - não tinha nome na época - sem comer animal. Hoje, como carne, mas não consigo comer fritura, Já que é para comer, que seja algo que me sustente. Nem que seja um pacote de amêndoas. Posso me matar de comer um pão integral inteiro, um pote de castanha de caju. A culpa é tão grande que não rola um fast food.  

Fonte: http://glo.bo/NiA2V0