Giulia Gam tem entusiasmo renovado ao interpretar Bárbara Ellen, de Sangue bom

26/05/2013 16:32

RIO - Giulia Gam demora duas horas para se transformar em Bárbara Ellen. Antes de entrar em cena para interpretar a atriz decadente, canastrona e sem noção da realidade de “Sangue bom”, ela se “monta”. Usa peruca, batom vermelho, cílios e unhas postiças. Um dos destaques da trama das 19h da Globo, a atriz também emagreceu “uns 10 quilos” antes do início das gravações. Mas o que se vê no ar há quase um mês vai muito além do trabalho de caracterização.

— É bacana mobilizar o público. E causar um impacto dessa dimensão numa novela das 19h em pouco tempo. Mas imaginei isso quando li o texto. E estou achando o máximo — diz Giulia, de 46 anos.

Criada pelos autores Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari, Bárbara Ellen se acha uma verdadeira diva. A personagem compensa a falta de talento trocando de maridos e adotando filhos para se manter em evidência. Para brincar com o universo da histriônica atriz, diz Giulia, é preciso know-how.

— Você tem que ter um repertório. A orientação foi fazer o mais sério possível. Em cena, estou uns quatro tons a mais. Esse é um personagem que, se errar, vai errar muito. É tipo Titanic, não dá tempo de fazer a curva. Se errar, vai bater no iceberg — compara Giulia, tomando um café sentada no sofá da sua casa, no Leblon.

Sem maquiagem e usando um macacão preto e solto, ela diz ainda estar impactada por sua imagem como Bárbara. E solta uma gargalhada ao lembrar a ligação que recebeu de um tio após a estreia.

— A frase dele foi: “Giulia, o que é isso? De onde você tirou essa mulher?” — ri.

Uma mudança para Giulia, que conta preferir começar mais discreta antes de ganhar terreno na trama. Foi assim com Heloísa, a ciumenta de “Mulheres apaixonadas” (2003), e com Bruna, a carola de “Ti-ti-ti” (2010). Só para citar dois tipos que ganharam espaço com as novelas em andamento. Com Bárbara não foi possível. Ela é do tipo que “chega chegando”:

— Exige muito. Fico pregada depois de gravar oito horas seguidas. É muita adrenalina e dá medo porque ela é importante na trama. Tenho que estar forte. Mas é a hora de concentrar a energia no trabalho.

O momento é de paz, e isso se reflete em seu ofício. Hoje, uma das questões que preocupam Giulia é como manter o entusiasmo pela carreira iniciada aos 15 anos de idade, no teatro. Na TV, ela estreou em 1987, nos primeiros capítulos de “Mandala”. Já “Que rei sou eu?” (1989) foi sua primeira novela completa. Para Giulia, seu trabalho na televisão se divide em duas fases. Da estreia até a minissérie “Dona Flor e seus dois maridos” (1998). E do novo estouro, em “Mulheres apaixonadas”, até aqui.

A primeira parte engloba personagens memoráveis na minissérie “O primo Basílio” (1988); na novela “Fera ferida” (1993); e nas séries “A vida como ela é” e “A comédia da vida privada”, nos anos 1990. No ano passado, ela atuou em “Amor eterno amor” (2012). Mas foi com Bárbara Ellen que admite ter voltado a sentir um frio na barriga ao entrar no estúdio para gravar.

— Passamos por várias fases de estímulo na carreira e penso muito sobre isso ultimamente. Alguns atores abrem o leque e começam a dirigir e escrever. Não sei se esse será o meu caminho — pondera.

Os planos, diz, mudam de acordo com os ciclos:

— Aos 30, eu já achava que havia chegado a um patamar e que teria o controle da minha vida. Eu imaginava coisas diferentes.

Giulia não parou de trabalhar, mas se voltou mais para a sua vida pessoal na virada dos 30 anos. Ela se casou com o jornalista Pedro Bial nesta época. E engravidou de Theo — hoje um rapaz louro, magro e alto, de 15 anos. A separação do casal não foi amigável. A dolorosa briga pela guarda do filho se estendeu por dois anos e tornou-se pública.

— Tive experiências fortes e passei por momentos difíceis. Precisei lidar com universos que nunca tinha lidado. A minha mãe teve câncer e faleceu em 2007. Minha energia ficou muito voltada para ela. Mas agora está tudo encaixado, no lugar. O Theo está crescido, e a questão toda envolvendo o Pedro também foi resolvida — conta.

Em casa, com o filho, a conversa sempre foi franca:

— Filho é um espelho. Vemos nossos valores e referências ali. É um amor incondicional, mas você não pode transferir suas angústias para uma criança. Agora, já existe um ser formado, que também me ensina coisas e me dá toques.

Hoje Giulia diz manter uma “relação cordial” com Bial. O jornalista fez questão de falar sobre a ex-mulher ao ser procurado pela Revista da TV. E destacou seu trabalho.

— Giulia é uma atriz excepcional, completa. “Sangue bom” está dando a chance de nos deleitarmos com a sua veia cômica. Uma comediante a que os jovens comediantes deveriam prestar muita atenção, pois ela faz comédia como se deve fazer, como tragédia, mortalmente a sério. Trata-se de um presentão para os telespectadores: Giulia Gam inteira e entregue. E é o único jeito que ela sabe atuar: se entregando integralmente, “da raiz dos cabelos até a sola dos pés” — diz Bial, por e-mail.

Amigo de Giulia, Ney Latorraca foi outro que ligou para ela quando a viu como Bárbara. Ele conta que a atriz é séria profissionalmente, mas destaca seu senso de humor como característica marcante:

— Giulia não acredita muito nos tapetes vermelhos da vida. É uma atriz de nível. Sou fã.

“Genial” é o adjetivo usado por João Emanuel Carneiro para definir Giulia. O autor a escalou para uma participação em “A favorita” (2008). Ela fez Diva, presidiária que ajudava Donatella (Claudia Raia) a se vingar de Flora (Patrícia Pillar).

— Giulia é intensa e verdadeira. Gostei tanto dela na novela que não tive coragem de matar a personagem — diz.

Para o dramaturgo Marcelo Pedreira, Giulia é “uma pessoa doce e sensível na intimidade”. A atriz atuou ao lado de Wagner Moura na peça “Dilúvio em tempos de seca” (2004), escrita por Pedreira.

— Nós também namoramos, mas fizemos o espetáculo depois. Somos grandes amigos até hoje — destaca ele.

Foi depois dos 40 anos que Giulia começou a pensar sobre a passagem do tempo e seus efeitos.

— Até os 40 você quer ser reconhecida pela simpatia e pelo talento. Depois, quer ser linda e gostosa — diverte-se.

Brincadeiras à parte, ela acha interessante fazer uma mulher sensual aos 46 anos.

— Eu tenho cabelo fino, de criança. Nunca meti os peitos nessa coisa mais sensual — conta ela, que descobriu seu lado sedutor em “Dona Flor e seus dois maridos”: — Eu morri de medo porque a referência era a Sonia Braga. Foi a primeira vez que me questionei nesse sentido. Fui me descobrindo.

Com Bárbara Ellen, ela pode exercer sua sedução.

— É bom estar na TV depois dos 40 sem cair apenas no rol das mães. Mas é difícil envelhecer no vídeo — desabafa.

Apesar de nunca ter feito plástica, ela já procurou um médico para se informar:

— Tenho medo, mas ainda não tive a necessidade. O que puder fazer para ter a cara de uma pessoa da minha idade, vou fazer. Acho que (a TV) HD não é feita para a pele humana. É feita para bicho no fundo do mar. É hiper-realista. Mostra coisa que nem o espelho da minha dermatologista mostra. Não tem necessidade dessa lupa. Mas tenho que me conformar.

A atriz conta, ainda, que foi após os 40 que passou a ter uma maior dimensão da vida.

— Hoje é possível chegar aos 80 saudável se você não cometeu muitos estragos — ela diz, afirmando não ter provocado grandes danos.

E o trabalho tem a ver com isso. Aos 15, entrou para o Centro de Pesquisa Teatral (CPT), comandado por Antunes Filho.

— A década de 1980 foi punk, mas muito cedo comecei uma carreira. Eu tinha 15 anos, e a segunda pessoa mais nova, 25. Era virgem e tratada como café com leite. Não podia haver sexo entre as pessoas do grupo, nem uso de drogas. Minha mãe ficava feliz da vida — recorda.

Antunes, que chegou a chamar Giulia de “vendida” quando ela foi para a TV em 1987, hoje fala da atriz com carinho.

— Ela é portadora de alegria, um raio de luz. Sempre será a minha Julieta (ela atuou na montagem de “Romeu e Julieta”, em 1984) — diz Antunes.

Giulia passou parte da adolescência no CPT e foi emancipada para ficar com os seios de fora na peça “Macunaíma”.

— Quando fiz 18 anos e o Antunes nos deu férias, liguei para um ex-namorado dizendo que precisava resolver um problema — entregando, aos risos, como perdeu a virgindade.

Foi nessa época que ela se permitiu viver a vida. E fez uma viagem de carro com amigas, de São Paulo ao Farol de Santa Marta, em Santa Catarina.

— Depois que você já tem uma consciência é difícil desbundar. Nos anos 80 e 90 a cocaína era glamourizada. As pessoas da minha geração já tinham endoidado e até morrido. Convivi com gente usando droga, mas sempre tive resistência e respeito. Nunca foi legal para mim estar alterada para entrar em cena — conta.

O trabalho sempre foi motivo de questionamentos.

— Parece que você está sempre começando do zero. Isso cansa. O arquiteto tem a sua obra, o músico tem as composições. Mas novela é feita para ser algo do dia a dia. Não para ser guardada — avalia.

Fato é que Bárbara Ellen deve entrar para a lista dos grande papéis de Giulia. A autora Maria Adelaide Amaral revela que pensou na personagem como um “prêmio” para a atriz depois de ver seu empenho em “Ti-ti-ti”.

— Ela pegou um rabo de foguete. Fazia uma senhora com câncer. Papel dramático em novela das 19h é complicado. Giulia se entregou com paixão, e decidimos que ela merecia um papel grande em nossa próxima novela. Foi a partir da Bárbara que a gente desenhou a trama — conta a autora.

Fonte: http://migre.me/ePueV