Jorge Amado e suas donas Flor

10/02/2012 23:09
Entrevista produzida originalmente para a revista Monet de fevereiro de 2012.

Neste início de ano, Giulia Gam volta à televisão em dose dupla. Em março, estreia no novo folhetim das seis da Rede Globo, Amor, Eterno Amor, de Elizabeth Jihn. Mas, antes disso, protagoniza a reprise da minissérie Dona Flor e Seus Dois Maridos, destaque do Canal Viva em fevereiro. Em conversa com a MONET, Giulia conta sobre o desafio de viver a protagonista, Florípedes Paiva, na versão dirigida por Mauro Mendonça Filho. A atriz relembra o desafio que foi reviver a personagem consagrada por Sônia Braga em 1976, no filme nacional com a segunda maior bilheteria da história. Confira os principais trechos:

Como surgiu a ideia para a minissérie?
Giulia Gam: A gente vinha de vários trabalhos seguidos num grupo liderado há anos pelo Guel Arraes. Eram basicamente adaptações de literatura brasileira [para a série Terça Nobre Especial, entre 1995 e 1997], como O Homem que Sabia Javanês e O Alienista, que depois viraram A Comédia da Vida Privada. A gente era uma espécie de trupezinha dentro da Globo: eu, [Marco] Nanini, Diogo [Vilela], Débora [Bloch], Nanda [Fernanda Torres]… Aí o Maurinho Mendonça entrou também para dirigir e então eles tiveram a ideia de fazer a minissérie Dona Flor e Seus Dois Maridos.

Houve muita pressão por conta do filme de Bruno Barreto?
Giulia Gam: Acho o filme sensacional, fantástico. Me perguntei como seria refazer uma coisa que já era tão boa. Se o próprio filho do Mauro Mendonça [o ator, que viveu Teodoro no longa-metragem] estava tendo essa coragem, então, vamos lá… Resolveram testar algumas atrizes, não para verificar interpretação, mas porque queriam estudar a linguagem. Como eles queriam refazer um texto já tão bacana, pensavam se manteriam a Dona Flor clássica ou se partiriam para uma modernizada, mais loira, com uma trilha sonora com Carlinhos Brown e Ivete Sangalo, que na época era da Banda Eva. Estavam discutindo se ia ser algo mais contemporâneo ou não… Era uma questão importante, pois tanto a Dona Flor como a Gabriela tinham na Sônia Braga uma referência – e ela não é baiana, ela é do sul, é paranaense! [risos] Mas como eu estava por ali na turma, me chamaram para fazer o teste. Eu fiz completamente descompromissada, pois achei que nunca ia dar certo, pois optariam pelo physique du role original… E eu era tida como um tipo mais europeu, principalmente naquela época, em que eu estava loira, clarinha. Mesmo assim, acho que o teste ficou tão solto e natural que o Maurinho me ligou para contar sobre a indecisão da escolha entre eu e a Letícia Sabatella. Depois fiquei sabendo que eles haviam optado pela Letícia. E eu achei ótimo, fiquei feliz pela escolha e pela indecisão, por ter sido cogitada. Pena que isso só ficaria nas internas…

Mas então a Letícia chegou a ser preferida. Como a situação se reverteu?
Giulia Gam: Eu já estava envolvida com outro projeto até que um dia, no avião, li no jornal que a Letícia tinha declinado o papel… Quando eu cheguei em casa, havia milhões de recados da Globo, de diretores, e aí tive de mudar todos meus projetos. Naquele momento bateu um medo total…

O que você fez para se sentir mais segura?
Giulia Gam: Primeiro tive de enfrentar uma obra perfeita da Sônia Braga. Quem me ajudou muito nisso foi o próprio Bruno Barreto. Disse que teve que falar para Sônia segurar a impetuosidade, porque ela vinha do furor de Gabriela, que era outra coisa. Na visão dele, a nova personagem era realmente uma florzinha. Dona Flor trabalha com a família dela, ajuda os outros, tem sua moralzinha, é fiel, é preocupada… Quem desabrocha ela enquanto mulher é o Vadinho, com essa coisa de eles andarem sempre nus, de “brincarem”, o que acho uma palavra ótima [para se referir a sexo]. É claro que ele também dá mancada, quer jogar e faz ela sofrer pra caramba. Quando ela encontra o Teodoro, vê nele a outra coisa que a mulher almeja. Se de um lado há a sexualidade, a sacanagem, a brincadeira, o charme, o sedutor; agora ela encontra o outro lado, o do provedor, da segurança, da estabilidade… São as duas coisas que uma mulher quer e eu brinco que a Dona Flor é a única no mundo que conseguiu as duas. O Bruno me falou que o trabalho que fez com Sônia era justamente para segurar essa sensualidade explosiva que ela já tinha. Ela vinha da imagem da Gabriela descalça, de vestidinho, trepada no telhado; e a Dona Flor não é assim. Era praticamente uma menininha quando casou com o Vadinho. Ao mesmo tempo em que o Bruno teve que deixar a Sônia mais comedida e recatada, ele entendia que ela tinha essa sensualidade natural. Mas eu teria de encontrar a minha sensualidade, assim como cada um encontra a sua. Não tem como você inventar ou interpretar uma sensualidade sem cair numa paródia. Como eu nunca tinha lidado com isso, passamos por um processo muito bacana.

Então houve uma preparação de fato, um estudo da personagem.
Giulia Gam: Sim. Tivemos uma palestra muito boa do João Moreira Salles sobre a Bahia, sobre a malandragem diferente entre o baiano e o carioca, o jeito de olhar, de cantar, a capoeira, o samba… Até aulas para soltar o quadril eu tive [com a preparadora de elenco Maria de Médicis]. Aula de rebolado, de gingado ao descer uma ladeira, para ter essa malemolência do corpo. Quando se está na Bahia, realmente se entende como aquilo lá é sensual. Eu também incorporei um pouco mais: fiquei morena, deixei os cabelos mais crespos, acabei recuperando um pouco da minha avó por parte paterna, que era baiana…

A minissérie é bastante sensual, mas sem ser vulgar. Houve algo em especial para se atingir isso?
Giulia Gam: Na obra do Jorge Amado, a sensualidade é algo muito natural, faz parte daquela gente. Então tivemos que fazer com que na minissérie também fosse assim… Claro, tem uma preocupação com nudez, ainda mais sendo em TV aberta. Mas iria ao ar tarde da noite, então nos permitimos um pouco mais de liberdade. Seria mais na sugestão, como uma barra de cama que passava no quadro, ou com coreografias para que o corpo de um escondesse o do outro. Conversei bastante com Marinho sobre como fazer as cenas. Chegamos a bolar uma cama mais alta em que a câmera filmava de baixo para cima, com ângulos que eram só insinuantes. Num filme é uma coisa, mas na televisão sempre preocupa um pouco, principalmente a atriz, a maneira em que essas cenas são feitas. Vendo hoje, eu até acho que acabei censurando um pouco demais o Maurinho [risos].

Cecília Amado [continuísta da série e neta de Jorge Amado] contou que foi engraçada a naturalidade com que Celulari encarou a nudez no set…
A gente usou um tapa sexo que era hilário. A gente parecia dois eunucos, dois bonecos assexuados. Era cor da pele, colado com esparadrapo cirúrgico… Mas o Edson tinha de mostrar a bunda mesmo, porque era um traço clássico do personagem. E a gente ficou andando ali daquele jeito. No começo era meio estranho, mas foi tão surreal que começou a ficar engraçado, pois a gente nem usava um robe, ficava andando de lá pra cá. Era importante até para a gente se habituar, porque a sexualidade tinha que parecer natural na hora da cena, tinha que ser uma brincadeira, como o Vadinho falava…

Você fala como se o Vadinho realmente existisse e um traço marcante da obra de Jorge Amado sempre foi a força dos personagens. Você os sentia ali presentes de alguma forma?
Giulia Gam: Na época, eu estava casada com o Pedro Bial e ele tinha um programa de literatura para o qual ia entrevistar o Jorge Amado, e eu pedi para ir junto. Num momento da conversa, perguntamos sobre essa coisa dos personagens dele ganharem vida, passarem a ter uma vida própria depois de criados. E a Zélia [Gattai, escritora e esposa de Jorge Amado] estava junto nessa hora e lembrou de um dia em que Jorge foi dormir preocupado com o triângulo da Dona Flor, porque uma história assim nunca termina bem, sempre alguém é sacrificado. A princípio seria a própria Dona Flor, mas a personagem falou para ele, nos seus sonhos, que ela não queria morrer. Uma noite ele acordou de repente, falando para Zélia: “Já sei! A Dona Flor não vai morrer!” [risos]. Ele viu que é o único triângulo amoroso possível, por ser na Bahia, por ter candomblé e o Vadinho poder voltar…

Fala-se que ao começar uma polêmica sobre sua escalação para o papel, a Zélia tratou de te defender. Você se lembra disso?
Giulia Gam: Na mesma vez, quando que eu estava com Bial na casa do Jorge Amado, perguntamos a ele quem poderia viver a melhor Dona Flor. Era a época de seleção do elenco, acho. E ele respondeu: “Quem tiver o melhor rebolado…” [risos] Eu pensei: “Que azar o meu!” Mas é verdade. O rebolado da ladeira do Pelourinho, por exemplo… Isso era importante. Quando ele falou isso da bunda – ou do traseiro, não lembro que termo usou – a Zélia entrou em minha defesa totalmente. Disse “Ela está ótima!” Senti o apoio da Zélia e fiquei muito feliz.

Era uma responsabilidade muito grande interpretar um personagem de Jorge Amado?
Giulia Gam: Apesar de estar com uma equipe na qual eu confiava muito, com gente com quem eu trabalhava já há bastante tempo, eu me percebia muito nervosa, muito irritada, eu estava realmente tensa… Um dia o Maurinho deixou no meu camarim uma flor superbonita num vaso e um bilhete escrito: “Não se preocupe, Giulia, você É minha Flor” [destacando o verbo]. Vi que eu estava realmente nervosa, insegura, angustiada mesmo por fazer a Dona Flor. O medo bateu depois que comecei a fazer o negócio, quando vi o tamanho da responsabilidade. Mas quando ele me deu esse aval, daí eu relaxei, comecei a curtir, e daí foi uma delícia. Mas até então, estava tensa. O Maurinho teve muita sensibilidade…

A filmagem em si transcorreu tranquilamente?
Giulia Gam: A gente foi filmando mais ou menos na ordem… Começamos ali na Bahia e o Maurinho fez um cenário que simulava o Pelourinho, pois o Pelourinho em si estava muito reformado na época, todo pintado e tal… Então a gente fez na Saúde. Mas começamos com cenas que não eram de nu. Essas a gente fez no Rio. Invadimos o Projac antes de ele estar pronto. O estúdio A estava mais ou menos pronto e a gente teve de vir para o Rio e montar um cenário razoavelmente grande, o da casa da Dona Flor. Mas só tinha a gente lá no Projac, era meio engraçado. Brinco com o Edson que a gente já passou por coisas incríveis. Faz tempo que a gente não trabalha juntos, mas a gente já passou por muita coisa legal… E também teve a história com o Teodoro em Bananal, que é uma coisa diferente… Só pedi dois autógrafos quando eu era mais nova, um foi do Nanini e o outro, da Fernanda Montenegro. Então foi muito bacana trabalhar com ele. Era um tom tão diferente. Tem uma coisa que eu não posso tornar pública, mas ele se inspirou num amigo em comum da gente, um ex-namorado meu [risos] e o Nanini ficava me perguntando sobre ele… Mas nem ele sabe que inspirou o Teodoro. Foi muito bacana.

A farmácia em Bananal, apesar de ser tombada como patrimônio histórico, está sofrendo ações do tempo e seu atual dono tem dificuldades financeiras para mantê-la. O que pensa a respeito?
Giulia Gam: Essa farmácia foi escolhida a dedo. Como a gente optou por essa coisa atemporal, era necessário ter elementos novos e antigos, justamente para cair nessa época indefinida. Teoricamente o Teodoro é um homem à moda antiga. Então uma das coisas engraçadas é o traço metódico dele, de etiquetar tudo na casa, de ter horário para tudo… E lembro muito das cenas na farmácia, do balcão de madeira, daqueles jarros de vidro com rolhas. E o lugar é extremamente bonito, impecável, aquilo foi muito pesquisado, muito procurado pela direção de arte, para encontrar um lugar que desse conta daquele espírito. Tanto que a gente saiu completamente do roteiro de Bahia e Rio, indo para lá filmar especificamente na farmácia. Então acho uma pena que esteja passando dificuldades. Há vários motivos para ser preservada. Se ela já é tombada, deveria ser mais tombada ainda. Jorge Amado passou por ali de alguma maneira. Faz parte da história do Brasil.

Em 2012 é comemorado o centenário de nascimento de Jorge Amado. Além de Dona Flor, qual a importância pessoal que o escritor tem para você?
Giulia Gam: Eu li muito Jorge Amado. Meu pai preparava pacotes de livros para me mandar nas minhas férias e sempre tinha muito Jorge Amado. E eu adorava, não era uma obrigação. Uma das primeiras viagens que fiz com a família foi à Bahia e meu pai fazia questão que a gente ficasse no Pelourinho, que na época era superperigoso. Me botava para jogar futebol com os moleques lá. Meu pai fazia questão de fazer uma viagem não-turística, de realmente entrar nos lugares para conhecer, claro, dentro do limite do risco. A Bahia sempre me deixou impressões muito fortes… O mercado modelo, a Cidade Baixa, a Cidade Alta, os cheiros, a cultura… E teve uma época que passei a ir todo ano para a Bahia, passei a ter uma relação muito forte com o lugar mesmo. Talvez sejam alguns dos genes da minha avó.
Apesar de Jorge falar de sentimentos e coisas profundas, fortes, sociais; acho que o mais interessante é que ele tem uma linguagem acessível, gostosa, de romance para se ler mesmo… Como criança, eu adorava, e eu reli de outra maneira depois de adulta. A gente consegue ver tudo aquilo, os personagens são empolgantes, eles levam a gente, ficam muito fortes no nosso imaginário. A gente visualiza tudo aquilo muito fortemente, fica muito envolvido.

E a obra Dona Flor em especial?
Giulia Gam: Talvez se tenha tanta vontade de se reescrever Dona Flor [para a televisão, para o cinema...] por ter sentimentos tão universais na obra. Só depois de fazer a Dona Flor e ver que ela foi para o exterior, gerou peças de teatro e outras coisas que eu percebi o quanto a história é um clássico. Me deu mais clareza de que o Jorge Amado não é tão regional assim. Conforme vai se aprofundando, a gente vê coisas universais, como a busca do feminino, essa luta entre o sedutor e o recatado… A mulher que está dividida entre o amante safado e a segurança do pai, simploriamente falando. Isso foi impressionante enquanto eu fui fazendo, de conhecer melhor a mulher mesmo e, talvez, aprender a lidar com coisas que talvez um dia eu mesma enfrente no futuro… Apesar do primor que foi o filme com Sônia Braga, depois de interpretar a mesma personagem percebo que é uma história que merece ser contada várias vezes. É um clássico.

Qual foi o maior prazer em interpretar Dona Flora?
Giulia Gam: Difícil dizer, foi incrível interpretar essa mulher… Começa novinha na história, com 15 anos, e passa por esses dois casamentos. Eu tinha quase 30 anos e engravidei logo depois da série. Foi um dos trabalhos mais prazerosos que eu fiz, pois mexia muito com a minha feminilidade. Não era só uma questão de interpretar bem ou mal as cenas. Mas esses dois arquétipos tão diferentes de homem mexiam com sentimentos femininos muito fortes… Foi muito rico, divertido, sensual. Acho que foi um dos trabalhos mais gostosos que fiz. Muito difícil também, pois ela passa por tudo: começa menina, depois ela aprende, vive a maturidade da mulher, tem seu próprio negócio, descobre seu homem, depois sua decepção, a morte, o velório, a dor, as saudades, o novo marido, sua infertilidade… É a personagem feminina mais feliz da humanidade. O único triângulo amoroso que deu certo.

Fonte: http://bit.ly/VNKx6s