Marcada por personagens destemperadas, Giulia Gam acha difícil arrumar funcionários para trabalhar em casa: ‘As pessoas têm medo de mim’

14/12/2014 14:13

Giulia Gam não é o tipo de pessoa que faz cerimônia. Conversar com ela é se sentir amiga íntima, dividir até as curiosas dificuldades de seu dia a dia comum. Com uma daquelas gargalhadas que dominam a sala, ela conta a complexidade que é conseguir contratar funcionários. Graças às personagens descompensadas que interpreta, como a Carlota, de “Boogie Oogie”, a atriz causa pavor em muita gente.

— O pessoal não quer trabalhar comigo. Eles têm medo de mim. É sério, todo mundo pergunta para os porteiros: “Como ela é de verdade?”. Os taxistas ficam com receio e no fim da corrida, dizem: “Nossa, como você é gentil, simpática”. É muito doido. Juro por Deus que tenho a maior dificuldade de arranjar gente para trabalhar na minha casa. Mas quando aceitam, supreendem-se positivamente, porque veem que sou o contrário do que pensam — afirma a atriz, de 47 anos.

Mas se a má impressão fosse só nesse departamento...

— Quando começo a me relacionar com os homens, os amigos deles perguntam: “Escuta, como ela é, você não está com medo?”. Isso vem acontecendo desde Heloísa, de “Mulheres apaixonadas”. Desde que enfiei a faca no Marcello Antony, o pessoal se apavorou comigo (risos). Tenho que avisar que já fui mocinha também. Mas a partir de Heloísa a galeria está meio apavorante e acho que eles têm a impressão que sou independente, raivosa, a fúria em pessoa — analisa.

Furiosa mesmo, só na pele de Carlota, que após 15 dias de uma ausência assustadora para os personagens da trama, retornou disposta a fazer um banzé na família e na vida do marido, Fernando (Marco Ricca). A atriz, aliás, se viu no olho no furacão com essa saída temporária de “Boogie Oogie”. Alguns motivos levantados para seu desaparecimento teriam sido depressão, cansaço e até uma briga com o diretor Ricardo Waddington.

— Quando li isso, pensei: “Putz grila, esse estigma (depressão) me persegue. Não houve nada disso. Não estou deprimida, não tenho por que estar. Saí de um trabalho de sucesso (“Sangue bom”) e emendei em outro. Ricardo e eu nos conhecemos há muito tempo, desde “Mandala” (1987). E temos muita liberdade, a ponto de eu dizer: “Pô, Ricardo, não estou conseguindo fazer isso!”. Acho que quiseram criar uma crise numa novela em que está tudo bem. E meu afastamento era estratégico, já previsto pelo autor — garante Giulia.

Responsável pela trama, Rui Vilhena confirma o seu esquema.

— A ausência da Carlota já estava na sinopse. Quando uma personagem forte como essa desaparece, é um evento na trama, diferente de estar vendo ela todos os dias. O retorno, então, traz uma virada, ainda mais o dela, cujo desaparecimento foi cercado de mistério. O mesmo também aconteceu com Alessandra Negrini, quando ela se ausentou por conta do sumiço de Suzana — justifica o autor, que não esconde seu encantamento com a performance de Giulia: — Um bom vilão nunca é esquecido e Carlota já faz parte dessa galeria. O público está seduzido por ela. O texto dela tem uma certa comicidade, ela fala as barbaridades com uma seriedade horripilante. Não é fácil fazer a personagem, porque poderia cair na caricatura. E Giulia vai no ponto, tem vezes que parece estar possuída (risos).


A aprovação do autor tira um peso dos ombros da atriz. Quando ela foi chamada para fazer “Boogie Oogie”, ficou insegura por achar o jeito de Carlota semelhante ao de Bárbara Ellen, papel de sucesso em “Sangue bom”.

— Foi uma das primeiras questões que eu tive, até por fazer uma em seguida da outra. Elas são da mesma família. Então, quando recebi a Carlota, vi que teria certa dificuldade de sair de um condicionamento e entrar no outro em sintonias que poderiam ficar muito próximas. E as duas têm um humor sarcástico, um cinismo... Foi um recondicionamento. Às vezes, lutava comigo mesma, com a minha dificuldade. Estou feliz por ter conseguido deixá-las distintas — comemora Giulia.

Enquanto Carlota perde tempo defenestrando as filhas Sandra (Isis Valverde) e Vitória (Bianca Bin), Giulia é daquela mãe cheia de orgulho do filho, Théo, de 16 anos, fruto de seu casamento com Pedro Bial.

— Fico orgulhosa do garoto bacana que ele se tornou. Théo tem carisma, é querido por todos. Sinto que tem confiança em mim, carinho, respeito. Vejo a maneira como lida com a namorada dele, com quem está há um ano e meio. O importante é o amor, a disponibilidade afetiva. Há um tempo em que você doa, doa, e agora pode relaxar, pedir colo, porque já é um rapaz — constata.

Mesmo tendo a consciência de que seu filho já é um homem, Giulia ri alto ao dizer que “é muito estranho” vê-lo tão crescido e com namorada ao lado.

— Às vezes, não consigo linkar aquele bebê com esse rapaz, porque eles dão um pulo. E, de repente, eu vi pêlo no suvaco, na perna... A mesma que ele jogava em cima de mim tão pequenininha, agora, me amassa. Aí, vem a namorada, tudo bem, não fico com ciúme, é mais uma sem gracisse. Uma vez fomos ver um filme juntos e até ele não sabia como se comportar. Ficou no meio da gente, a namorada querendo abraçar... Uma hora ele resolveu: jogou o pezão em cima de mim e deu uns beijinhos na menina — diverte-se.


A conturbada relação com Bial, com quem chegou a disputar a guarda do filho, hoje flui naturalmente e Giulia assume que, em boa parte, isso se deu pela postura de Théo.

— A relação entre nós três está legal, por incrível que pareça. Foram tantos anos... Acho que Théo foi conquistando o espaço dele, o que me deixa bem feliz. Muito do meu alívio, da minha alegria, de eu voltar a fazer papeis com energia, é porque pude relaxar. As coisas se definiram pelo próprio Théo. Podia ter sido antes, mas, agora, com mais idade, ele pôde criar um diálogo dele com o pai, dele comigo, depois meu com o pai, mas sempre passando por ele. É o grande mérito dele, ter superado isso tudo e conseguir lidar com a gente. Não queria que meu filho tivesse todo esse trabalho. Afinal, nós somos os pais, a culpa é toda nossa de ter colocado ele nessa situação. Théo lida com isso bem, tem ali pai e mãe. Pedro e eu já conseguimos sentar juntos, conversar sobre nosso filho. Isso para mim foi a grande mudança desses últimos anos — desabafa Giulia.

A 14 dias de completar 48 anos, os olhos de Giulia ainda brilham com a possibilidade de ser mãe novamente.

— Tinha vontade de ter mais um filho. Sou filha única e queria ter tido um em seguida do outro, porque imagino que deva ser legal ter uma parceria. Mas por força das circunstâncias, da separação, você vai adiando um segundo filho... Até os 45 anos me deu aquela febre. Mas pode ser que volte a dar porque ainda sou uma pessoa fértil (risos). Não quero nem pensar na menopausa — brinca a atriz, que está solteira e se pega pensando se teria energia para começar tudo de novo: — Às vezes, isso vem a minha cabeça. Mas se tiver que procriar, a energia aparece, porque para a natureza filho é mais importante que a mãe.

Giulia lembra ainda que seu desejo era ser a única mulher da casa.

— Queria ter três filhos, o marido seria o quarto homem da casa e eu a rainha (risos). Um momento bem Carlota, né? Eu queria reinar absoluta em casa — diverte-se ela, para pontuar em seguida: — Diferentemente dela, eu não suportaria certas coisas. Se descobrisse um caso do meu marido de anos, com direito a filho, não perdoaria de jeito nenhum.

Ao mesmo tempo, Giulia faz uma ressalva:

— Uma traição dói muito, mas, eventualmente, dependendo da circunstância, pode haver um perdão. Já mudei de ideia várias vezes sobre isso, mas o que que vivi na carne é: se a pessoa for honesta, tendo uma boa explicação, sendo convincente, e com uma vontade real de mostrar que você ainda é a pessoa importante, pode-se chorar para caramba, claro, mas não se quebra a lealdade. O pensamento seria: “Ok, a gente passou por isso juntos, podemos até fortalecer nossa história”.

Mas essa postura, segundo a atriz, só vem com os anos. E ao falar em maturidade, gargalhando de novo, ela se lembra da passagem do tempo. Giulia é enfática ao dizer que “ninguém é tranquilo com o envelhecimento, só aquele em que nada ainda despencou”:

— Quando começa a flacidez... Acho que me preocupo mais por causa da TV, porque acho que na vida, estou bem e saudável para minha idade. Não tive coragem de fazer intervenções ainda, porque sou medrosa. Mas tem procedimentos legais e não agressivos como a plástica. Para mulher é difícil, tudo aparece mais, o aspecto de cansaço. Não tenho problema com rugas de expressão, porém, a flacidez vai dando um ar de cansado. Acho bacana as pessoas que conseguem dar uma refrescada no rosto e continuam com a idade que têm. É possível manter um pique para, inclusive, ter possibilidades de papéis.

Desde que perdeu 10kg para viver Bárbara Ellen, inclusive, Giulia preza por alimentação saudável e exercícios. Loucuras juvenis ficaram para trás.

— Já tomei bolinha quando nova, saí com namorado e tomei vinho. Fiquei tão doida! Hoje, se estou gastando energia em exercício, equilibra tudo. Suar é bom, todo tipo de suor é ótimo — diz, como sempre, às gargalhadas.

Fonte: http://migre.me/nvr7K